Another week, another coronavirus crisis. Parece quase redundante afirmar o que já falamos há quatro semanas, mas esta última semana de março foi marcada, novamente, por notícias relacionadas ao coronavirus e seu impacto sobre a atividade global, bem como as medidas tomadas por diversos governos no sentido de estabilizar a situação (em termos de saúde e em termos econômicos).

No cenário externo, destaca-se a aceleração do surto nos EUA, que agora contabiliza mais casos do que qualquer outro país. Ao mesmo tempo, a Itália dá sinais de estabilização no avanço diário, o que será um sinal positivo caso confirmado pelo mercado. Ao mesmo tempo, o Reino Unido passou a adotar medidas mais estritas de isolamento social.

Em termos econômicos, foco no fiscal: o senado americano aprovou na quarta-feira um pacote de quase 2 trilhões de dólares com medidas diversas de contenção de crise, que auxiliam tanto pessoas físicas como jurídicas. O pacote deverá ser aprovado também na câmara (House of Representatives) ao longo desta sexta-feira.

Já em termos de política monetária global a semana foi mais calma. Vimos muitas aparições de membros de bancos centrais do G10, mas essencialmente em um movimento de reforçar que as autoridades estão dispostas a fazer ainda mais para manter o bom funcionamento dos mercados. Vale mencionar aqui que a preocupação central está relacionada ao bom funcionamento do canal de crédito na econômica, para que um cenário ao estilo de 2008, quando o fluxo de crédito cessou, seja evitado.

Finalmente, vimos os primeiros dados da economia real ex-China mostrando o tamanho do impacto do surto: os pedidos de auxílio desemprego semanais nos EUA subiram para o recorde histórico de 3 milhões; o PIB de Singapura no primeiro trimestre caiu -10.6% e a confiança do consumidor na Alemanha despencou. Em suma, resultados razoavelmente esperados dentro do cenário de forte contração tanto pelo lado da oferta como pelo lado da demanda. Ainda assim, mantém-se a expectativa que uma vez passado o surto, a recuperação econômica será vertiginosa.

No Brasil, vale destacar a analise em três aspectos: política monetária; medidas fiscais e relação entre poderes e entes da federação. No que tange o primeiro, a ata da última reunião do COPOM foi divulgada na segunda-feira e o Relatório Trimestral de Inflação na quinta-feira, ambos trazendo informações relevantes sobre o entendimento do cenário por parte do BACEN. Essencialmente, há disposição por mais cortes da taxa SELIC, mas estas seriam contingenciadas ao entendimento de que contribuem efetivamente para promover o afrouxamento das condições financeiras. Este ponto foi reiterado diversas vezes pelo presidente do BACEN, Roberto Campos Neto. A autoridade monetária reconhece de forma clara que há grande variância nos seus cenários de inflação (leia-se, incerteza) e que isto, somada a incerteza sobre a real transmissão de cortes da SELIC para as condições financeiras, enseja maior cautela.

Em termos de medidas fiscais, começamos a ver maior movimentação do congresso em torno de auxílio direto para pessoas físicas e jurídicas que serão inegavelmente impactadas pela crise. Vale a ressalva neste momento de que deve haver preocupação em adotar medidas que tenham impacto fiscal permanente sobre as contas públicas. Há de se diferenciar entre impacto temporário ante a conjuntura econômica (o que provoca uma alteração no nível da dívida) de um impacto permanente (o que provocaria uma alteração na trajetória da dívida). Evidentemente, dado o delicado estado das contas públicas nacionais, o primeiro é preferível e, diga-se, necessário ante o impacto econômico esperado.

Finalmente, há toda uma discussão em curso entre as autoridades da união e entre o presidente e governadores estaduais sobre as medidas mais apropriadas a serem tomadas. Não pretendemos tomar postura aqui, mas vale ressaltar que organização, cooperação e boa comunicação são elementos essenciais para o combate à crise que estamos vivendo, sob o risco que atuação independente das autoridades gerem resultados negativos.

Algumas notícias veiculadas ao longo da semana davam conta sobre uma possível reforma ministerial que veria o ministro da economia e o ministro da saúde afastados. Este movimento não faz parte de nosso cenário base no momento.

A guisa de conclusão, destaca-se somente ainda o movimento dos preços de petróleo, que seguem pressionados sem perspectiva de um acordo entre os principais produtores (EUA, Arábia Saudita e Rússia).

Assim, mantemos nossa recomendação de alocação da semana passada: “acreditamos que houve um grande desmonte de posição ao longo das últimas (…) semanas e que isto abriu oportunidades atrativas para investimentos. Evidentemente, há chance de não termos chegado ao final do ajuste e as notícias seguem extremamente voláteis, mas também não há como negar o surgimento de oportunidade. Isto vale para todas as classes de ativos: renda variável, renda fixa e dólar.”.