Modalmais – comentário semanal (03/04)

Passou março e seguimos em lockdown. Diferente das outras semanas, há alguns desenvolvimentos econômicos e de mercado relevantes: os dados começam a refletir de forma mais clara o impacto de uma parada repentina na economia e os mercados se deparam com a necessidade da espera por notícias que podem de fato reverter o choque à confiança do consumidor e produtor gerado pela pandemia.

No setor internacional as notícias seguem contrastantes: por um lado, há indicação de que o pior momento do surto pode ter passado na Itália. Por sua vez, a China relatou de forma cara que uma parte grande de seu parque industrial já retomou atividade, enquanto a dimensão do surto fica mais evidente nos EUA.

Em termos de dados, destaca-se o Payroll nos EUA. Segundo a literatura acadêmica, este dado é maior movimentador de mercado existente, visto sua relevância para medir a salubridade do mercado de trabalho americano. Houve uma destruição de vagas de trabalho maior do que o antecipado e, preocupantemente, a taxa de desemprego avançou de 3.5% para 4.4%. a evolução é sem dúvida consistente com o cenário de sudden stop ao invés de uma deterioração gradual como antecedeu crises anteriores.

O que é mais preocupante em todo caso é que o dado ainda não reflete na sua totalidade a deterioração econômica de março, visto que sua coleta ocorreu até cerca de duas semanas atrás. Ao mesmo tempo, é de se supor que as próximas semanas ainda trarão desenvolvimentos negativos, o que significa que nos próximos meses veremos ainda deterioração adiciona nos indicadores macroeconômicos.

No mercado de commodities tivemos finalmente algum desenvolvimento positivo. Após intervenção do presidente americano Donald Trump, tanto os governos da Rússia como da Arábia Saudita se mostraram dispostos a retomar negociações por um possível corte no preço de petróleo. Segundo as últimas notícias, há real chance de uma reunião extraordinária no OPEP ainda na segunda-feira (06/04) e um corte de produção de até 10 milhões de barris por dia. Isto, por mais que não permita a retomada do preço do barril ao patamar anterior, certamente servirá para estabilizar o mercado e representa relevante reversão em um ciclo de notícias extremamente negativo.

Passando ao cenário local, vemos um aumento contínuo da relevância do parlamento no fluxo de decisões em direção a medidas de alívio econômico para a crise. Há avanço concreto na PEC do Orçamento de Guerra e também no Plano Mansueto. Ao mesmo tempo, o executivo assinou o auxílio emergencial para autônomos, faltando somente operacionalizar seu desembolso. Por outro lado, a MP que deverá permitir redução e suspensão de contratos de trabalho ganha contornos mais evidentes.

Ressalta-se que as medidas vão no sentido correto: ante a natureza do choque, há necessidade de suporte fiscal para a economia. Isto, no entanto, não retira o custo que as medidas de apoio terão: a elevação da razão dívida/PIB (tanto por aumento do gasto como por queda no PIB) obrigará medidas fortes de ajuste por parte da União uma vez a crise seja superada.

Em termos de alocação, vemos um cenário complexo: há de se dizer que existem ações na bolsa com valuation atrativo, mas a redução da volatilidade neste momento é essencial. Ao mesmo tempo, uma retomada de preços ocorrerá somente com a substituição do fluxo de notícias (o que pode ocorrer mais rápido do que o antecipado, por óbvio).

Mantemos nosso racional de que a redução do funding stress de dólar global deveria favorecer uma estabilização da moeda local, mas isto depende também da redução da volatilidade e aumento da atratividade da economia brasileira.

Mantemos o comentado semana passada: “Evidentemente, há chance de não termos chegado ao final do ajuste e as notícias seguem extremamente voláteis, mas também não há como negar o surgimento de oportunidades. Isto vale para todas as classes de ativos: renda variável, renda fixa e dólar”.

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais