A Ciclotimia dos Mercados

Os agentes do mercado estão com os “nervos à flor da pele”. Não é segredo para ninguém que os mercados gostam quando há a aproximação do processo de impeachment da presidente, não exatamente para vê-la fora do jogo político, mas do que isso poderia significar em termos de reformas na política econômica e melhora da credibilidade.

Porém, como por definição impeachment é um processo demorado, principalmente se tivermos em conta que é sobre o PT, a situação complica ainda mais. O efeito disso é que os mercados ficam absolutamente ciclotímicos. Quando as chances de impeachment melhoram, a Bovespa sobe e juros e dólar caem. Quanto o processo de impeachment fica mais complicado dá-se o inverso. De outra feita, como o futuro é absolutamente incerto nesse momento, não existem tomadores mais definitivos de ativos, o que agrega mais volatilidade.

Juntem a isso o fato da Bovespa ter registrado valorização em março de 17%, com ações como Petrobras, subindo mais de 60% e Vale mais de 30%; e teremos precondições para realizações de lucros recentes. E não é só isso. Outras ações ligadas ao segmento de commodities e o próprio setor bancário tiveram boas reações em períodos recentes. Com o dólar desvalorizado em 10% em março, temos a potencialização dos lucros para investidores estrangeiros que é o segmento mais importante da Bovespa, representando mais da metade do volume diário transacionado.

Destacamos ainda que em março os estrangeiros alocaram liquidamente na Bovespa R$ 8,4 bilhões, no maior fluxo de recursos em um só mês desde janeiro de 2007. No ano tais investidores já alocaram recursos da ordem de R$ 10,6 bilhões, o que não é nada desprezível, notadamente se levarmos em conta todo o reveses da economia, das empresas listadas em bolsa e o horizonte turvo.

É nossa percepção que essa situação vai seguir adiante, até que o horizonte do país fique um pouco mais claro, os riscos envolvidos na aquisição de ativos possa ser melhor dimensionado. Nesse momento o que temos são apostas. Aqueles que creem no impeachment ampliam os riscos, enquanto os descrentes se protegem na renda fixa, preferindo agora migrar um pouco para títulos prefixados, já que existe a perspectiva concreta dos juros caírem no segundo semestre do ano.

Isso no entanto não inviabiliza compras progressivas de ações com bom conteúdo fundamentalista. Em que pese nesse momento a crise não permitir pagamentos de bons dividendos, ainda assim a preferencia dos investidores recai sobre setores e empresas mais maduras, com menor alavancagem financeira e com boa governança corporativa. Não casualmente essas empresas são as que possuem filosofia de remuneração melhor definidas.

Podemos afirmar que o nível de preços atual ainda embute parte das expectativas de impeachment da presidente Dilma. Isso significa dizer que se as chances reduzirem, ainda haveria espaço para quedas nos ativos. Ocorre que nesse momento as chances de impeachment seguem elevadas e, estando bem encaminhadas, os mercados reagiriam de forma mais forte pelo aumento da credibilidade e governabilidade.

Isso posto, seguimos acreditando que há espaço para diversificar carteiras com ampliação do risco de exposição, eventualmente fazendo uso de mecanismos de proteção em derivativos para redução da exposição.

Nesse ponto cabe lembrar Sêneca que dizia “Não chega primeiro quem vai mais depressa, mas sim quem sabe para onde vai”.