Na semana que passou, a Petrobras foi o grande destaque do mercado local e internacional, com toda celeuma que envolveu a política de preços de derivados implantada recentemente pela companhia. Convém dizer que essa prática de comportamento dos preços é usual entre as petroleiras do mundo. Principalmente num mercado de previsão absolutamente difícil, onde vários fatores concorrem para o estabelecimento do preço do barril de petróleo.

Antes de tudo, é preciso colocar que os maiores produtores estão no Oriente Médio, em zona secularmente conflitada, que sempre causam alterações de preços. Podemos incluir os membros do cartel da OPEP, que dependendo da postura, influenciam bastante nos preços da commodity. Recentemente os membros da OPEP secundados por outros players importantes, optaram por restringir a oferta de óleo, e os preços passaram a evoluir em alta.

A Venezuela em crise profunda procura reduzir a produção e venda de óleo pela PDVSA e o Irã com sanções americanas e de outros países também passou por distúrbios. Isso sem contar com problemas na Nigéria autorizada a elevar a produção, e Rússia, essa última também com sanções impostas pelos EUA.

No Brasil, a gestão de Pedro Parente na Petrobras tinha conseguido autorização para praticar preços de mercado internacional e, como lembrado, pegou um período de escalada dos preços internacionais. Além disso, por conta de indicadores de conjuntura internamente mais frágeis (ausência de medidas de ajustes da economia), mas principalmente pela valorização do dólar frente a quase todas as moedas do mundo, os preços dos derivados do petróleo passaram por forte escalada na ponta do consumidor final, absorvendo esses dois impactos negativos.

Disso acabou derivando a greve dos caminhoneiros sobre os preços do óleo diesel, culminando com a demissão de Pedro Parente da presidência da Petrobras. Bom lembrar que em seus dois anos na empresa, Parente conseguiu milagres. Reduziu o nível de endividamento da empresa e sua exposição ao dólar (85% era referenciada em US$), diminuiu a alavancagem, vendeu ativos fora do foco da empresa e pouco rentáveis, fez um grande programa de demissões voluntária, ajustou ativos (impairment) e colocou a empresa novamente nos trilhos da rentabilidade. Adicionalmente, foi possível vislumbrar retomada dos leilões e o retorno de investidores no segmento de óleo e gás, que tinha saído do país com as políticas erradas para o setor em governos anteriores. Acresce ainda o fato que a Petrobras estava começando a acenar com novos investimentos mesmo tendo feito pré-pagamentos de dívidas e tomado empréstimos novos com taxas mais atraentes.

Menciono todos esses fatos para dizer que a governança da empresa foi arranhada nesse episódio de mudanças na política de preços do óleo diesel, mesmo considerando a frase recorrente de que “nada mudaria na formatação da política de preços”. Já mudou! Além dessa pressão e das novas pressões sobre gasolina e gás de cozinha (esse já tinha mudada antes), há uma discussão subjacente que se refere à cessão onerosa, onde até nas declarações do ministro Moreira Franco estava expresso que a Petrobras teria muito a receber.

Ora, Ivan Monteiro assume tendo que preservar o legado deixado por Pedro Parente, no qual ele (Ivan) foi um dos formuladores da nova política de preços de combustíveis. Terá certamente uma parada dura para ser encarada. A Petrobras não tem culpa do preço do combustível no patamar atual. A carga tributária é enorme sobre os derivados e foi recentemente ampliada com PIS/Cofins pelo próprio governo. Se o governo quer subvencionar, ele que reduza a carga tributária e converse com Estados e Municípios sobre o ICMS.

A Petrobras é uma empresa pública (apesar de o governo ser majoritário), de capital aberto e com acionistas espalhados por todo o mundo. Portanto, sua administração tem obrigação de preservar a boa governança, o que deve atender os interesses de todos os investidores.

Por Alvaro Bandeira
Sócio e Economista Chefe home broker modalmais