O governo do presidente Michel Temer parece ter “descalçado a bota” da Reforma da Previdência, por diferentes razões. A primeira delas é que a base de apoio do governo não estava conseguindo obter os 308 votos necessários na Câmara para aprovação. Outro motivo residia no exíguo tempo para aprovação, antes que o processo de sucessão presidencial fosse deflagrado. Praticamente todos os parlamentares acham que não existiria clima para votar e aprovar reforma depois de encerrado o mês de fevereiro.

Depois disso, o esforço para aprovar uma reforma bastante desidratada seria enorme, e o próximo presidente obrigatoriamente teria que iniciar seu mandato tentando aprovar novas mudanças. O discurso da mudança passou então a ser de que poderia ser feita depois das eleições de outubro, mas isso teria que ser combinado com o presidente eleito, não necessariamente comprometido com a reforma dessa natureza, apesar de absolutamente indispensável.

Na visão de ministros e assessores mais próximos do presidente Temer, o desgaste até agora foi grande, e custou caro em termos de distribuição de emendas à parlamentares sem o correspondente comprometimento com votações. O governo apelou para governadores ligados a base e outros que querem o apoio federal, mas o eco não foi dos melhores. Assim, o presidente Temer virou o discurso da segurança pública, principalmente depois dos episódios de violência no Carnaval carioca e chacinas em Fortaleza.

Não interessa muito os motivos políticos que levaram o presidente Temer a mudar o discurso, mas é fato que o Rio de Janeiro necessitava sim de uma intervenção, com destaque para a segurança pública. O governo do Estado, nas próprias palavras do governador Pezão, havia perdido o controle e a GLO (Garantia da Lei e da Ordem) já não era suficiente, com as polícias necessitando de coordenação e planejamento centralizado das ações. Os cidadãos cariocas agradeceram a interferência, principalmente depois de constatarem as ausências do Governador, além Prefeito Crivella na coordenação das comemorações de Momo.

A queda de prioridade da Reforma da Previdência soa ruim para a economia por algumas razões. Por mais emagrecida ou liliputiana que fosse, ainda assim seria sinalização importante de que o governo estava imbuído de ajustar a economia e facilitar o trabalho do próximo presidente, qualquer que fosse. Igualmente seria boa sinalização para investidores locais e estrangeiros do ajuste e investimentos poderiam fruir mais fácil, principalmente se o quadro eleitoral caminhasse para vitória de um candidato mais de centro e reformistas, ao invés de alguém outsider. Adicionalmente, pode afetar a classificação de risco das agências internacionais como Fitch e Moody’s, deixando o país mais longe de recuperar em anos o grau de investimento perdido.

Isso sem contar os riscos embutidos para a economia em 2019, já que 2018 está razoavelmente garantindo em termos de crescimento ao redor de 3,0% para o PIB. Os problemas residem em 2019, com o indomável crescimento da dívida, cumprimento da regra de ouro e mercado internacional já não mais tão amigável em termos de disponibilidade de recursos para países emergentes. Portanto, como temos sempre destacado, o crescimento de 2018 poderia estar comprometido para 2019, e se situaria naquela alusão que fazemos de “voo de galinha”.

Agora, somos forçados a reconhecer que para o presidente Temer parece ter sido uma jogada de xadrez. Ao colocar como nova prioridade a segurança pública e, isso trouxer resultados práticos de mais curto prazo, a tendência é que ele cresça na aprovação da sociedade até o próximo mês de maio, ao ponto de justificar o lançamento de sua candidatura a presidente. Digamos que se chegar com cerca de 15% ou 20%, sua candidatura estaria viabilizada. Além disso, não podemos esquecer que Temer teria tempo de TV e a caneta na mão para abrir o “saco de benesses”.

Mais ainda, ao optar pela segurança pública e reduzir a prioridade da Reforma da Previdência, Temer reduziu o burburinho do PT e movimentos contrários de sindicatos organizados. Ao mudar de prioridade e se aproximar dos militares (por conta da intervenção), enfraqueceu o discurso da direita de Bolsonaro. Que é pré-candidato da direita, por ter saído na frente.

O jogo eleitoral complicou um pouco mais, assim como o ajuste da economia ficou mais para o próximo presidente. Fiquemos, pois, com uma frase de Einstein que dizia que “cada dia sabemos mais e entendemos menos”.

Alvaro Bandeira
Economista-Chefe Home Broker Modalmais
Fonte: https://www.modalmais.com.br/blog/falando-de-mercado