A frase título pode ser um pouco forte para justificar a situação presente do país, já que o presidente interino Michel Temer e sua equipe econômica tem se esforçado para colocar a casa em ordem. Porém, o equacionamento da grave situação brasileira não depende somente da equipe econômica (antes fosse assim). Depende da classe política em polvorosa e de outro tipo de urgência do Judiciário, que tem seu próprio movimento.

Temer se diz pressionado pelo Novo Centrão do Congresso pleiteando cargos como se a situação fosse ainda a que vivemos até aqui, cujo resultado todos sabemos qual foi. Temer é pressionado também por governadores cuja leniência anterior dos governos levou os estados brasileiros à situação pré-falimentar. O detalhe é que em passado não muito remoto os estados já tinham renegociado com a União.

Temer conseguiu aprovar no Congresso déficit em 2016 de R$ 170,5 bilhões, suficiente para incorporar perda de receita da não quitação de dívidas dos estados de quase R$ 30 bilhões em 2016, pela carência concedida até o final do ano, recém-negociada. Ocorre que as previsões que começam a serem elaboradas para o orçamento de 2017 só fazem piorar. Falava-se em novo déficit de R$ 100 bilhões e agora as estimativas começam a convergir para iguais R$ 170 bilhões no próximo ano. Isso acaba sendo bem ruim para um governo que quer recuperar a credibilidade junto aos credores e investidores.

Nesse compasso vai ser muito difícil contar com o crescimento do interesse dos investidores. Nesse compasso vai ser difícil domar o crescimento da dívida pública em relação ao PIB que vai vazar 80%, da mesma forma que atingir orçamento equilibrado. Nesse contexto, como projetar inflação cadente ou mesmo extrapolar tendência de queda para os juros?

Tudo isso fica ainda mais complicado pelo lado político absolutamente conturbado com o Brasil com dois presidentes, e a interinidade de Michel Temer que impede e limita atuação mais forte em ajustar a economia. Tem sido frequente declarações de importantes políticos como Renan Calheiros lembrando que isso ou aquilo só deveria ser feito após julgamento do processo de impeachment, como se o Brasil pudesse dispor de alguns meses mais para promover mudanças. É urgente mudar o status quo político. Seguimos afirmando que as mudanças não podem esperar. Cada dia é um dia perdido e pode fazer a diferença mais a frente.

Se colocar então a situação internacional, o quadro é agravado. Por enquanto, há enorme liquidez no sistema financeiro, o que poderia nos beneficiar em termos de atração de recursos, ainda que com taxas de juros e de retorno requeridas maiores. Porém, não podemos esquecer que estamos no limiar de ponto de inflexão na economia americana e próximos de decisão no Reino Unido que pode mudar as relações comerciais no futuro. Resultado, a liquidez internacional acabará por se contrair dificultando e encarecendo investimentos internamente.

Só para dar uma ideia de como o Brasil perdeu expressão nos últimos anos, a UNCTAD divulgou estatísticas referentes ao ano de 2015. O investimento estrangeiro global cresceu 38% para US$ 1,76 trilhão, enquanto os investimentos estrangeiros no Brasil declinaram 11,5% para US$ 64,6 bilhões. Com isso, o Brasil perde quatro posições no ranking indo para a oitava posição. Perdeu também quatro posições como país mais promissor ao figurar na sétima posição. Isso ilustra com folga nossa preocupação de que o Brasil tem que acelerar reformas econômicas, mas também a reforma política.