Na semana passada a B3 registrou perdas de 2,55%, concomitante à saída de recursos por parte de investidores estrangeiros de R$ 2,8 bilhões, até 29/11. No ano os investidores externos ainda estão com saldo positivo de R$ 10,1 bilhões, mas encolhendo mais de 50% da máxima alcançada no ano.

Essa queda da Bovespa se contrapõe a novos recordes atingidos na semana passada pelo mercado americano, como Dow Jones ultrapassando o patamar histórico de 24.000 pontos e valorização anualizada da ordem de 30%, enquanto no emergente Brasil a valorização de 2017 está pouco acima de 20%.

Na economia global e especialmente nos EUA, a conjuntura é francamente de recuperação, num ambiente de baixa pressão inflacionária, taxa de juros muito baixa, redução do desemprego (com os EUA considerado pleno emprego) e sem pressões salariais.

Segundo os livros didáticos seria situação pouco plausível, e a inflação já deveria estar mostrando a cara de forma mais forte. Existem várias teses tentando explicar essa situação “suis generis”, mas a que mais gostamos é a que indica que a tecnologia está reduzindo custos até o consumidor final. O e-commerce tem muito com essa redução de custo, assim como transporte autônomo e robôs na produção.

Aqui a situação é diversa, e a política continua a emperrar maior recuperação da economia, ainda que partindo de nível muito baixo de produção e consumo. No curto prazo o governo ainda conseguiu acelerar um pouco liberando recursos do FGTS e agora do PIS/ PASEP, situação que mexeu positivamente com o consumo e reduziu o nível de endividamento das famílias. Porém, temos que encarar isso como paliativos de curto prazo.

Precisamos atacar de frente reformas estruturantes capazes de embasar a retomada da economia de forma mais consistente, e para tal a reforma da previdência parece essencial. Nessa semana, depois de muitas marchas e contramarchas poderemos ter alguma definição. No final da semana passada o governo fez reunião das lideranças que apoiam o governo, e pediu que até a próxima quarta-feira (06/12) os partidos da base indiquem suas previsões de votos.

Isso poderá servir para que o presidente da Câmara Rodrigo Maia paute o primeiro turno de votação (são dois turnos), rapidamente seguido pelo segundo turno, e abrindo espaço para que o Senado haja da mesma forma. O simples fato de Rodrigo Maia pautar a votação já será um belo sinal de que o governo pode ter conseguido os tais 308 votos requeridos para aprovação.

Se colocarmos isso no contexto dos mercados de risco doméstico haveria muito espaço para a Bovespa recuperar patamares perdidos até 75100 pontos, firma tendência mais consistente e ir rapidamente buscar patamares ao redor do recorde, acima de 78000 pontos. Nesse ambiente cabe destacar que os investidores estrangeiros poderiam retornar com recursos sacados da Bovespa e não retirados do Brasil, assim como seria senha para os investidores institucionais aumentarem suas exposições, já que seguem bem vazios de renda variável.

Isso indicaria demanda maior que a oferta de títulos, e os ajustes se dariam nos preços dos ativos, até que novos IPOs viessem equilibrar oferta e demanda. Com a sinalização positiva de ajustes por aqui, a liquidez do sistema financeiro internacional elevada ainda por bom tempo e taxas de juros muito baixas (em alguns casos negativa); seria lícito supor que poderíamos contar com afluxo adicional de recursos para aplicações de maior risco.

Nesse ponto, convém alertar que se isso não acontecer, o reflexo será na direção inversa e o Brasil poderá ser rebaixado mais uma vez na classificação de risco das agências de rating. Ou seja, sem reforma da previdência estaremos dando passo atrás.

Vamos ter que aguardar o epílogo, mas será rápido.

Alvaro Bandeira
Economista-Chefe Home Broker Modalmais