Engraçado como funciona o conceito de “manada” dos investidores e gestores de recursos. Faz tempo que existia o quase consenso de que na reunião do Copom do próximo dia 16 de maio os membros votariam por mais uma queda da taxa Selic de 0,25%, para o patamar de 6,25%. A partir disso, haveria certa pausa para avaliar a situação, ou até segundo os mais otimistas, a manutenção da porta aberta para mais uma queda de juros.

Ocorre que as mudanças dos últimos dias foram fortes em termos de conjuntura global, e o discurso indutor do Bacen ficou meio defasado. O presidente Ilan e diretores vinham ajudando na formatação de posicionamento dos agentes nesse sentido de queda da Selic, mas foram atropelados pelos fatos. Hoje a corrente de que o Bacen pode não reduzir juros começa a ganhar força.

É bom que se diga que não é função de bancos centrais driblar a percepção dos agentes. Ao contrário, afirmamos que sua função é exatamente evitar grandes disparidades de avaliação, encaminhando os agentes para o consenso e menor volatilidade. Mas as situações acabam mudando rapidamente e, considerado o período de silêncio, pode não dar tempo de preparar os agentes. Isso já aconteceu em outras oportunidades, sem prejuízo da credibilidade da equipe do Bacen.

Desde a semana passada, temos assistido a expansão das taxas de juros de mais longo prazo, como forma de retratar alguma elevação da inflação. Aliás, o próprio governo e o presidente do Bacen têm insistentemente dito que sem reformas, a inflação não permanecerá baixa. Corrobora a postura do FMI de que o Bacen pode ter dificuldade em manter a inflação baixa sem reformas e não é só a da Previdência.

Incomoda os investidores a ausência de votações importantes pelo Congresso e mudanças pelo Executivo, já que estamos em pleno curso do processo eleitoral. Nesse contexto, os investimentos vão parando e investidores e empresários vão tentando avaliar quem será o sucessor de Temer e qual seria a sua postura inicial sobre realizar reformas estruturantes.

A crise argentina irradiou sua influência, apesar de não afetar tanto nossa economia. Certamente prejudica nossas exportações do segmento automotivo, afetando por consequência setores ligados a ela, dada a enorme cadeia de produção. Mas acende alguma luz no sentido do descontrole do déficit fiscal. Evidente que possuímos reservas suficientes para suportar adversidade por algum tempo e lidamos bem melhor com o câmbio. A Argentina pode ter errado em queimar reservas e só agora vai utilizar operações de swap. Diferente da expertise brasileira nessa área comprovadamente eficiente.

Mas de outra feita, caso vigore mesmo as restrições de comércio entre a China e os EUA, o Brasil ainda poderia ampliar suas exportações de soja para o Brasil, mas não muito, já que segundo o IBGE, nessa safra de 2018 haverá encolhimento de cerca de 4,4% sobre a mega safra do ano anterior. Resta saber como se comportarão os preços das commodities diante dessas restrições ou mesmo de uma guerra comercial.

Há ainda o fato de o Brasil estar crescendo de forma muito lenta no ano em curso e com grande capacidade ociosa na indústria. Isso limitaria a aceleração da inflação. De qualquer forma, temos que observar que o consenso está mudando de queda da Selic para manutenção. Na balança de perdas e ganhos, a redução da Selic não significaria ganhos para a política do Bacen e nem tanto para a economia, ao mesmo tempo em que impulsionaria a taxa cambial no sentido da alta. Talvez não seja um bom negócio.

Vamos esperar para ver! Por enquanto é só uma especulação.

Por Alvaro Bandeira
Sócio e Economista Chefe home broker modalmais