Não bastassem todos os problemas internos de nossa economia e política, os investidores voltaram a estressar no plano internacional. Na semana que passou, Donald Trump anunciou que imporia novas tarifas para importação de aço e alumínio, em respectivamente 25% e 10%. A comunidade financeira gritou contra.

Tivemos manifestações da Alemanha, Canadá e França; do FMI e outros, incluindo o Brasil. Todos gritando contra o protecionismo, numa época em que as economias começam a recuperar mais fortemente e bancos centrais de países desenvolvidos começam a preparar a normalização da política monetária.

Donald Trump, além de tuitar muito sobre isso antes de colocar formalmente em prática a nova tarifação, não se fez de rogado e agregou novas críticas ao acordo comercial NAFTA que envolve Canadá e México. Não satisfeito ameaçou com mais retaliações para importações de veículos da Europa, o que suscitou novas críticas por parte da Alemanha e União Europeia. Apesar disso, Trump disse não acreditar em guerra comercial.

Realmente vamos ter que ver onde tudo isso chegará. Se ficar somente em poucas retaliações (e parece claro que existirão) por parte de países exportadores como China e Brasil e algumas demandas à OMC, menos mau. O problema está se essa situação degringolar para barreiras levantadas de todos os lados comprometendo o comércio transnacional. Como bem diagnosticou o presidente do FED de NY em visita ao Brasil: “protecionismo é o final da linha”.

Protecionismo não convém a ninguém. Muito menos aos EUA. Trump sabe disso. O problema está em seus discursos de campanha dizendo que iria recuperar a indústria tradicional americana que tinha sido destruída. Falou isso do carvão da siderurgia e outros setores tradicionais que acabaram o elegendo. Trump busca, provavelmente, com isso não perder o controle do Congresso nas eleições legislativas de 2018. Caso isso aconteça (e lá não é diferente daqui), Trump irá ficar acuado, como ficou Obama durante vários anos.

Portanto, o problema transcende a esfera da economia e passa a ser determinado pelo lado político. Mesmo que isso seja verdade, ainda assim poderiam ocorrer mudanças importantes na economia. Primeiramente haveria aumento de custos de produção, não só por tarifas impostas, como também por conta de eventual escassez de produtos. Depois, teria influência sobre a taxa de inflação em diferentes países, deixando a tarefa de bancos centrais ainda mais árduas no controle das pressões. Devemos acrescentar que no caso específico americano, o FED ainda conta com dificuldades adicionais representadas pela reforma tributária recém aprovada, cujos efeitos ainda vão se fazer presentes, e passíveis de serem avaliados pelo FED.

No caso de emergentes, a situação é ainda mais gravosa. Sem grandes mecanismos de barganha e sem poder de influir em decisões de organismos multinacionais, só resta tentar ficar fora das restrições. No caso brasileiro, isso é mais difícil, já que somos grandes exportadores de produtos de aço e alumínio. Obviamente que precisamos da receita de exportações para equilibrar o déficit em conta corrente, e nesse ano não contaremos com volumes de excedentes exportáveis, até por conta da expansão interna prevista.

Com isso, a perspectiva de nossas contas externas piora um pouco, logo ela que nesses últimos anos foi o destaque positivo. Falamos do lado macro, mas evidentemente teremos influências micro no que tange ao aumento da produtividade e lucratividade que estavam sendo previstas e melhor remuneração aos acionistas.

Vamos ter que torcer para o Brasil não ser tão afetado e para que o processo de retaliação não siga adiante. Isso só saberemos mais para a frente e avaliando a postura americana e de outros países influentes. Trump já disse que não voltará dessa decisão, mas como dizia o nosso ministro Roberto Campos: “mudar é prerrogativa das mulheres bonitas e dos homens inteligentes”. Trump é inteligente.

Alvaro Bandeira
Economista-Chefe Home Broker Modalmais
Fonte: https://www.modalmais.com.br/blog/falando-de-mercado