Assim como num bebê onde o primeiro passo é sempre muito difícil, no caso do ministro Levy os seus três passos elencados são igualmente complicados. O ministro expõe que os três passos seriam o ajuste fiscal (imprescindível para os seguintes), a queda de juros e reformas estruturais.

Antes de tudo consideramos o ministro absolutamente correto nas prioridades, porém vemos com olhos menos otimistas que seja possível iniciar caminhada. O primeiro passo fica bastante comprometido no que tange ao equilíbrio fiscal em 2016, já que a matéria principal, a recriação da CPMF, esbarra na aprovação do Congresso, nesse momento francamente contrário à aprovação da contribuição ou outro qualquer aumento de carga tributária. Cabe lembrar que a arrecadação via CPMF foi estimada em R$ 32 bilhões, de um ajuste requerido entre receitas novas e despesas menores de R$ 64 bilhões.

Ou seja, metade do ajuste será difícil ou não atingirá o objetivo, já que sua aprovação somente ocorreria lá por meados de 2016, portanto, teoricamente ficando pela metade. Além disso, há problemas para posterga o aumento do funcionalismo do judiciário, novamente estabelecido pelo governo como uma economia de R$ 7 bilhões. Já as mudanças que o governo prometeu na ultima semana com redução de ministério e cargos comissionados, é projetada pelo Planejamento em somente R$ 200 milhões.

O segundo passo do ministro Joaquim Levy indica que, dependendo do primeiro passo, os juros teriam condições de cair. Numa parte o ministro tem razão: a inflação deve retroceder um pouco, não exatamente por medidas adotadas, mas pela própria desaceleração da economia. Porém, até aqui temos a situação inversa. Basta ver que a pesquisa Focus semanal do Bacen mostra percepção oposta no curto prazo para a inflação e os indicadores finais ou parciais anunciados mostram exatamente o contrário, com expectativa d aceleração futura. Convém notar ainda que até aqui os gastos de governo são expansionistas e custam a tender para a neutralidade.

O terceiro passo do nosso ministro parece ainda mais complicado. A presidente Dilma disse em seu discurso de abertura da assembleia da ONU que o Brasil não precisa de reformas estruturais, mas tão somente de reformas conjunturais. Esse discurso está em desalinho com o que prega Joaquim Levy que entende como fundamental que existam reformas estruturais, começando obviamente pela reforma da Previdência, foco de enorme déficit nas contas públicas e com tendência francamente crescente nos próximos anos.

Em entrevistas recentes o ministro tem mostrado leitura diferente para o déficit fiscal, dizendo que os swap cambiais tem acelerado isso, que a desvalorização do real eleva nossas reservas externas em reais ou ainda que os cortes darão resultados. Ao mesmo tempo, o governo diz não ter nenhum outro plano, caso a CPMF não vingue (ministro Barbosa). Levy que tirou um pouco o foco do ajuste e agora fala em crescimento já no início do próximo ano (carnaval), diz que investimento em infraestrutura é parte focal da estratégia de investimento, passando por ampliação da produtividade. Pois bem, isso depende da credibilidade do governo, que nesse momento tem andado na contramão. Fala ainda que o mercado de capitais tem o desafio de financiar a infraestrutura, mas o mercado de capitais está completamente fragilizado, e o que se nota é o fechamento de capital por parte de empresas e suspensão de IPOs.

O discurso otimista do ministro Levy (e não poderia ser de outra forma) terá que vir para a prática com a segurança fiscal ascendendo e a segurança jurídica voltando a dar as caras para melhorar os investimentos em infraestrutura.