Na última sexta-feira, os mercados passaram batidos pelo rebaixamento da classificação de risco do Brasil pela Fitch, uma das três maiores agências de rating do mundo, para BB- e perspectiva estável. O fato veio na sequência do rebaixamento feito em janeiro pela S&P. Os motivos foram praticamente os mesmos.

Demora e adiamento de medidas de ajuste do déficit fiscal, eleições majoritárias trazendo instabilidade, discussões para mudar regra de ouro mostrando fraco compromisso com ajustes, principalmente para o ano de 2019. O interessante é que assim como a S&P, a Fitch identificou melhora dos indicadores de conjuntura.

Os mercados passaram batidos pelo rebaixamento por conta de tanto a Fitch como a Moody’s terem sinalizado anteriormente que poderiam seguir o mesmo comportamento da S&P, caso a reforma da previdência não fosse votada. Agora, fica faltando a Moody’s proceder ao rebaixamento, totalmente esperado para os próximos dias. Porém, depois disso não é de se esperar nenhuma outra atitude até que as eleições presidenciais ocorram e o novo presidente seja conhecido.

Novo posicionamento das agências de classificação de risco estará condicionado ao perfil do novo presidente. Se reformista e disposto a fazer ajustes na economia visando principalmente o déficit fiscal e previdenciário, ótimo. Se ao contrário, for mais populista e pouco afeito a mudanças que são imprescindíveis, muito provavelmente estaremos novamente na linha de tiro de rebaixamento pelas três agências. Ou seja, vão dar uma trégua até que a situação futura melhor se defina.

Passamos batidos pelo rebaixamento por algumas razões. A primeira é que já era amplamente esperada tal atitude. Depois, a maior preocupação dos investidores está focada na postura dos principais bancos centrais com relação à retirada de estímulos monetários. A postura de alta dos juros de forma gradual já está dada pelo FED, mas outros bancos centrais sinalizam na mesma direção de elevar juros e ir encerrando o processo de distensão monetária. Nessa tendência poderíamos citar o BOE (BC Inglês), BCE (BC Europeu) e ainda o BoJ (BC Japonês); talvez um pouco mais distante.

Passamos batido pelo rebaixamento, mas nem por isso deixa de ser importante. Vamos ficar cada vez mais longe no tempo de voltar ao grau de investimentos. Em tese, seria preciso que ao menos duas das três agencias voltassem para o nível. Certamente teremos menos recursos disponíveis para ingressar no Brasil por conta da restrição de muitos gestores em aplicar nos países que não possuam o selo de grau de investimento. Depois, além de mais escassos em volume, ficará mais caro obter recursos no mercado internacional. Nesse ponto, cabe citar o ditado que diz que “nenhuma corrente é mais forte que seu elo mais fraco”. Basta ver que em dias subsequentes ao rebaixamento, várias empresas e instituições financeiras são sempre rebaixadas.

Por fim, cabe lembrar uma situação peculiar ao mercado. A constatação é que temos fluxo sendo canalizado para a aquisição de ativos de risco dado que muitas empresas estão com preços atraentes, juntando isso com a maior propensão ao risco por parte dos gestores de recursos, especialmente no início do ano, quando erros de avaliação podem ser corrigidos ao longo do restante do ano.

Passamos batido pelo rebaixamento, mas as consequências macroeconômicas virão em algum momento dificultando ainda mais a recuperação econômica de um país desequilibrado e com problemas sérios nos três poderes, numa época conturbada de eleições com teoricamente muitos pré-candidatos.

Vai ser dureza atravessar esse mar revolto da economia brasileira. Camões dizia que: “um dia o dano pode ser maior que o perigo”.

Por Alvaro Bandeira
Sócio e Economista Chefe home broker modalmais