AE News entrevista modalmais:
É Possível Triplicar o Negócio de Fundos, diz Ronaldo Guimarães
Por: Karla Spotorno

O negócio de fundos de investimentos poderá triplicar em menos de três anos no modalmais. A perspectiva é de Ronaldo Guimarães, sócio-diretor do banco digital do grupo Modal que atende hoje 490 mil pessoas e tem R$ 6,5 bilhões sob custódia. Desse total, apenas 35.500 investem em algum dos 245 fundos de 110 gestoras da prateleira da plataforma, num montante de R$ 600 milhões. A previsão de crescimento, traçada por Guimarães, justifica-se em alguns fatores: facilidade de acesso a fundos de gestoras antes inalcançáveis para clientes de bolsos modestos, baixa rentabilidade em opções conservadoras – como títulos de bancos ou públicos atrelados à Selic –, além de uma profusão de informação e também de novos gestores em busca de mais cotistas. Nesta entrevista, Guimarães diz que se a reforma da Previdência for aprovada, o Brasil pode viver o melhor dos mundos, com atividade econômica caminhando para uma melhora e juros baixos ao redor do globo, o que atrai investimentos para os emergentes. Sem isso, no entanto, ele prevê um colapso nos preços dos ativos. No sentido contrário, ele destaca que o investidor brasileiro tende a aumentar o interesse por oportunidades de investimento fora do País, sobretudo fundos com ativos offshore. Abaixo os principais trechos da entrevista:

Broadcast: Plataformas como Órama e BTG Digital deixaram de cobrar taxa de administração de fundos DI conservadores. O modalmais planeja oferecer taxa 0%?
Ronaldo Guimarães: Temos visto esse movimento [de zerar taxa de administração] acontecendo quase que exclusivamente nos fundos Selic, onde o gestor, basicamente, compra títulos do governo. Então, cobrar para não fazer nada não faz muito sentido. Para nós, o que faz sentido para quem investe é ter rentabilidade. Por isso, é mais interessante um fundo conservador que cobra taxa de administração de 0,30%, por exemplo, e que entrega algo além do CDI do que não pagar administração e receber menos do que o CDI.

Broadcast: Algumas gestoras ainda cobram taxas altas em fundos em que não fazem nada em termos de gestão.
Guimarães: Mas quem ainda cobra taxas altas está perdendo em captação. Esse processo disruptivo que as plataformas e bancos digitais protagonizaram no mercado fez as pessoas entenderem que existe vida fora do sistema financeiro tradicional e também democratizou o acesso a bons investimentos. Antigamente, um investidor com R$ 100 ou R$ 1.000 para aplicar não tinha acesso a fundos de investimentos mais sofisticados. Hoje tem.

Broadcast: A questão é que a taxa zero de administração também funciona como um chamariz. Como ferramenta de marketing o modalmais tem nos planos zerar taxa?
Guimarães: Sim. Temos a ideia de fazer isso. Mas como nosso ‘pitch’ é ser o banco digital dos investidores, o objetivo é fazer com que o cliente ganhe dinheiro. O chamariz da taxa zero pode funcionar bem, mas quando ele olha a rentabilidade que conseguiu e compara… esse zero pode ser um “zero mentiroso”.

Broadcast: Falando um pouco de produtos, os fundos de crédito privado estão crescendo bastante. Não é preocupante ver o investidor conservador nesse tipo de aplicação?
Guimarães: Para o investidor que está saindo de um investimento conservador como a poupança, o fundo de crédito pode realmente não ser o melhor canal. Para esse perfil, a indicação inicial pode ser um título indexado ao CDI, como um CDB ou uma LCI, uma LCA. Um outro movimento bastante relevante que vimos foi o fluxo para fundos de debêntures incentivadas, que têm oferecido rentabilidades ligeiramente acima do CDI. A grande questão é que o brasileiro ainda está muito acostumado a olhar a cota dia a dia. E o horizonte de investimento tem que ser maior. Entendemos que, pelas condições de hoje, a taxa básica de juros no Brasil vai ficar permanentemente baixa.

Broadcast: Por ora, nada contraria a expectativa de Selic de um dígito por muitos anos, ainda que o IPCA de março tenha surpreendido.
Guimarães: Verdade, mas não foi nada demais. Além disso, saiu [o projeto de] autonomia oficial do Banco Central.

Broadcast: Isso ajuda?
Guimarães: Muito. Ajuda a garantir que a instituição não será politicamente pressionável. Quando coloca a autonomia no papel, os diretores ganham maior tranquilidade para executar o mandato que têm.

Broadcast: Hoje o modalmais tem quantos clientes ativos na plataforma de fundos?
Guimarães: Na plataforma digital, temos 490 mil clientes ativos. Desse total, 35.500 investem em fundos de diversas classes. Não temos uma concentração grande em uma ou outra classe. Assim como na média da indústria de fundos, cerca de 9% está em fundos de Bolsa. Daqui para frente, o fluxo de recursos para fundos de ações, multimercados, para Bolsa vai depender de como será conduzida a reforma da Previdência. Os gestores estão começando a ficar mais pessimistas.

Broadcast: Qual é a avaliação de vocês sobre o andamento da PEC da Previdência?
Guimarães: A reforma vai passar. Temos uma visão construtiva para Brasil por conta da agenda mais liberal do novo governo e também por um movimento de descompressão do País depois de um longo período de aperto, queda de PIB. Esse viés positivo não tem por que mudar. Inclusive, no ambiente externo, o sinal ficou melhor, porque havia uma preocupação geral com aumento de juros pelo Fed [Federal Reserve, banco central norte-americano] que seria ruim para os mercados emergentes. O fato de o Fed ter voltado atrás e anunciado que iria parar de elevar juros favoreceu os emergentes, inclusive o Brasil. O BCE [Banco Central Europeu] veio, pouco depois, na mesma linha. A previsão é que os juros, que estão negativos, vão ficar em zero.

Broadcast: Algum produto ou estratégia nova deve ganhar força neste ano? Alguma gestora nova que vai entrar na plataforma?
Guimarães: Estamos chegando muito perto do que considero o tamanho ideal da carteira. Ter mais do que 300 fundos não traz uma grande vantagem comparativa. No fim desse ano, deveremos chegar a 300 fundos e mais 40 emissores de títulos de renda fixa, o que vai significar quase 450 produtos disponíveis para os clientes. É um grande hipermercado financeiro.

Broadcast: O modalmais tem meta para aumentar o número de clientes investindo em fundos?
Guimarães: Não temos uma meta propriamente. O que sempre buscamos é apoiar o investidor a montar um portfólio diversificado, com vistas à rentabilidade e que saia do tradicional. Nesse sentido, fundos fazem todo sentido. No atual cenário, entendemos que é possível triplicar o negócio da plataforma de fundos num horizonte não muito distante.