À espera de Jackson Hole
Por Alvaro Bandeira
Economista-Chefe do banco digital modalmais

No final da semana de 19 a 23 de agosto inicia mais uma reunião em Jackson Hole. A reunião é o encontro de bancos centrais no Wyoming com direito a abertura por Jerome Powell. Assim como em outras ocasiões, ao longo desses dez anos, a reunião assume grande relevância. A questão central é se Powell será mais suave em suas declarações (dovish ou mais duro).

Donald Trump tem se esmerado em críticas à atuação do FED no que tange a política monetária. Jogou no colo do FED todas as culpas por indicadores de conjunturas mais frágeis. Diz que o FED foi rápido demais em tentar ajustar a taxa de juros e o tamanho de seu balanço. E, com isso, tirou a competitividade e produtividade da economia.

Voltando no tempo, antes da crise do subprime em 2008, o tamanho do balanço do FED estava em US$ 1,0 trilhão, chegando a quase US$ 5,0 trilhões depois das rodadas de QE’s (Quantitative Easing). Para ser próximo de R$ 3,8 trilhões, o que seria do tamanho ideal para o momento. Ao mesmo tempo, a taxa de juros do FED está no intervalo de 2,00% | 2,25% com a inflação abaixo da meta de 2,00% e economia em estado de pleno emprego e sem pressões salariais.

Parece ter consolidado a inversão da curva de juros com as taxas praticadas no curto prazo mais elevada que as de longo prazo. Na visão dos economistas e no processo histórico, quando o movimento ocorre estamos diante da possibilidade de recessão. Afinal, os EUA veem num ciclo de forte expansão praticamente desde 2009, e temos ainda a constatação de que as últimas cinco recessões havidas nos EUA foram precedidas por inversões na curva de juros.

A leitura então é de que existem “sintomas” de possível recessão na economia americana mais para frente, chegando bem perto das próximas eleições do país, onde teoricamente Donald Trump estaria largando na dianteira e com boa margem sobre candidatos democratas. As especulações seguem fortes sobre desaceleração da economia americana e chinesa, muito por conta das disputas comerciais entre os dois países, ainda que sem indicações de desaceleração mais grave. Novamente temos investidores estressados que querem prever o futuro, baseados em incidências anteriores e ainda fundamentados no cenário da desaceleração econômica global. Principalmente na zona do euro e puxado em boa parte pelo PIB negativo que pode ter nova contração no terceiro trimestre.

A grande questão é como os principais irão agir diante de tudo. É bem verdade que o Banco Central Europeu (BCE) pode ter alguma dificuldade de produzir novos estímulos diante da taxa de juros negativa em 0,40% e do alongamento na compra de títulos. Mas o FED tem espaço para agir na redução dos juros e medidas que destravem mais o crédito, com alguma pressão inflacionária, em um quadro tranquilo de inflação. Principalmente se avaliado por ter andado bem abaixo da meta durante muitos meses.

Entendemos que outros bancos centrais importantes do mundo não teriam problemas para voltar a flexibilizar a política monetária. No rol podemos incluir a China claramente por sua política de planejamento central e desvalorizando o yuan com queda de juros. O Banco Central Japonês (BoJ) divulgou que produzirá estímulos. O Banco Central Inglês (BOE) divulga que não gostaria, mas pode ser obrigado por um Brexit sem acordo. Assim como outros bancos centrais (Austrália e Canadá por exemplo).

Nossa crença é que não teremos nenhuma ação coordenada dos principais bancos centrais, como foi feita após a quebra do Lehman Brothers em 2008. Movimento que reduziu juros em 0,5%. Todos os bancos centrais caminharão na mesma direção (uns mais devagar outros com rapidez). A inação de agora (exceção ao FED que foi comedido em reduzir) não deve permanecer. Em setembro, podemos ter surpresas. Vale também para o Banco Central do Brasil (nosso Bacen) que pode voltar a reduzir juros novamente em 0,5% na próxima reunião e seguir com viés de queda.

Somos otimistas convicto e antecipamos nossa visão de que o mundo saberá contornar essas situações pelo lado positivo. O constrangimento atual se assemelha mais com “tempestade em copo d’água curtoprazista”.

Até a próxima semana.