A inconstância de Trump
Por Alvaro Bandeira
Economista-Chefe do banco digital modalmais

Que Donald Trump tinha um certo “quê” de ciclotímico o mundo já sabia desde sua campanha eleitoral de primeiro mandato. Que Trump ouve muito pouco seus auxiliares e governa muito pelo twitter, também era de ciência de todos. Porém, ao longo desses anos os agentes dos mercados deixaram de interpretar à “ferro e fogo” as declarações do presidente e suas inconstâncias. Trump em momentos está eufórico, e em outros, fala e divulga coisas quase desconexas.

Nesses últimos dias, o presidente parece ter passado dos limites, pelo menos no que tange a afetar os preços dos ativos. Na última sexta-feira, dia 3 de maio, Trump declarou que os acordos comerciais com a China caminhavam para serem “históricos e monumental”. Os mercados reagiram fortemente e o Dow Jones subiu no mesmo dia 0,75%, o S&P bateu novo recorde histórico e o Nasdaq valorizou 1,58%.

Ocorre que o presidente Trump voltou a tuitar, indicando que irá aplicar taxação adicional sobre produtos chineses em 25% (anteriormente estavam em 10%), já a partir do próximo dia 10 de maio. E sobre cerca de US$ 200 bilhões. O agravante é que tudo ocorreu às vésperas de novo encontro com missão chinesa em Washington, liderada pelo vice-primeiro-ministro Liu He, teoricamente para arredondar os acordos antes do encontro de Trump com o presidente da China, Xi Jinping.

É uma característica de Trump pressionar seus contendores antes de encontros, mas dessa vez o presidente americano passou dos limites. Os mercados acionários do mundo iniciaram a semana em fortes quedas, com destaque para Xangai com perdas de 5,58%, levando de roldão outros mercados espalhados pela Europa. E até nos EUA. E não foram somente as bolsas. A mexida ocorreu no equilíbrio cambial, juros e commodities.

As taxas de juros dos treasuries encolheram bastante, o dólar se fortaleceu perante outras moedas e o apetite ao risco se transformou em aversão ao risco. A premissa básica é que Trump não pode manipular os ativos ao seu bel prazer alterando o comportamento e funcionamento dos mercados, ainda que dentro de uma visão de curto prazo. A reação dos agentes foi forte e a China ainda não se posicionou se seguirá com sua missão nos EUA na semana. Segundo o noticiário, não dá para os chineses negociarem com uma arma apontada para a cabeça.

Claro que não podemos dissociar de outros fatores como o acirramento dos ânimos na faixa de Gaza, com Israel fazendo o ataque mais violento dos últimos cinco anos, depois de ser atacada. Nem mesmo esquecer a movimentação americana de porta-aviões próximo ao Irã visando intimidação, ou ainda novos testes com armamentos realizado pela Coreia do Norte. Porém, o maior efeito sobre os mercados ficou mesmo por conta de Trump, e como acessório as discussões ainda sem definição com a União Europeia, principalmente versando sobre o setor automotivo.

Se diante de tudo ainda colocarmos o Brasil com a retomada dos trabalhos pela Comissão Especial da Reforma da Previdência e seus ruídos e a safra de balanços do primeiro trimestre que coloca Vale e Petrobras no centro das preocupações; está formado um quadro de grande volatilidade para o período que está só começando.