Por Alvaro Bandeira
Sócio e Economista Chefe home broker modalmais

A constatação é que até o presente momento, há baixa contaminação dos mercados por conta dos problemas atravessados pela Turquia. Porém, na última sexta-feira ( dia 10 de agosto) os mercados e investidores chegaram a ficar bastante nervosos e com oscilações bruscas de queda. Logo cedo, o BCE (BC Europeu) indicou preocupação com a exposição de bancos da zona do euro com relação à carteira de títulos da Turquia assumida.

Os mercados logo se ajustaram para essa declaração, com títulos de países desenvolvidos mais frágeis sofrendo com vendas e a volta da aversão ao risco para o dólar. E também na troca por títulos da Alemanha. Os emergentes sofreram e, no caso do Brasil, o dólar observou forte valorização, e na semana mostrou alta de 4,06%, depois das cotações beirarem R$ 3,90, com juros em alta.

Cabe lembrar que antes tivemos a crise na Argentina que obrigou o governo de Macri a puxar juros para o patamar de 40%, mantendo depois essa taxa em duas reuniões de seu banco central. Logo em seguida, ataques contra a Turquia, obrigando seu banco central a elevar juros para 17,5%. O problema maior veio depois.

Como o presidente Erdogan controla o país com “mão de ferro”, em reunião posterior de seu banco central, a taxa de juros foi mantida estabilizada, quando todos acreditavam que o banco central turco iria novamente elevar. Isso deixou os investidores estressados e a lira começou novo processo de desvalorização. Erdogan e seu genro tentaram num primeiro momento domar a situação pelo ângulo político, e não pelo que seria normal, a via econômica e financeira.

Em discurso para a população, Erdogan conclamou a sociedade para vender dólares, euros e ouro; e comprar liras turcas, pois não elevaria mais a taxa de juros e a economia estava bem. Foi o que faltava para os mercados adquirirem ainda maior aversão ao risco. O governo só acertou a mão (há quem diga que ainda de forma tímida) no final de semana adotando medidas de liquidez e restritivas.

Erdogan advertiu empresas a não retirarem moedas estrangeiras dos bancos. Que tinham sido apunhados pelas costas pelos EUA (ainda usando um pouco da política), enquanto seu ministro da economia montava um plano de ajuste. Elevou depósitos de garantia de 7,2 bilhões de liras turcas para 20 bilhões, fará leilões de recompra de títulos adicional, caso necessário. E ainda impediu a venda descoberta de ações no mercado de Istambul. Reduziu o compulsório bancário, e com isso ampliou a liquidez.

A visão internacional dos analistas é que nem mesmo isso surtirá os efeitos desejados, sendo preciso elevar juros novamente. Porém, é fato que deu uma acalmada nos mercados, ainda que temporária. Na verdade, parece que será preciso acionar novas medidas, enquanto os investidores vão ficar avaliando o contágio em duas vertentes. Uma avaliação da situação de bancos europeus (e se isso será abordado com medidas do BCE) é como fica a situação dos emergentes diante da aversão ao risco global.

Do ângulo da atuação do BCE, pode ser justificável alguma intervenção produzindo liquidez e suporte para instituições. No que tange aos países emergentes, a posição de alerta seria recomendável. Citamos inclusive o fato do dólar ter superado na manhã de 13 de agosto a cotação de 30 pesos, já mostrando algum estresse e obrigando o banco central a elevar novamente os juros de 40% para 45%.

Em termos de Brasil, apesar de termos cerca de US$ 380 bilhões de reservas, estamos diante de uma eleição majoritária complicada, sem reformas estruturantes, déficit de grandes proporções, elevado endividamento interno e crescente. Além de um governo sem apoio popular e em final de mandato. Seria positivo já ter elaboradas algumas medidas para serem colocadas em prática. Afinal, o seguro morreu de velho.

Enquanto isso e até que a situação se estabilize, vamos conviver com grande volatilidade da Bovespa, dos juros e, principalmente do dólar.