Por Alvaro Bandeira
Sócio e Economista Chefe home broker modalmais

Sob pena de esquecermos uma ou outra campanha desde que o Brasil retomou o processo democrático, essa campanha eleitoral, junto com a anterior, foi certamente a pior. De nível mais baixo, não só nas eleições majoritárias para presidente, mas também para governadores, piorando ainda mais nesse período que antecede o segundo turno.

Felizmente só teremos mais essa semana para tais ocorrências. A partir disso, teremos muita oposição, dada a polarização assumida em todos os espectros da sociedade. Uma campanha lotada de fake news, de mau uso das redes sociais para espalhar boatos e mentiras.

Uma campanha eleitoral na qual os ataques foram uma constante e planos e programas de governo, esquecidos. O clima beligerante dos candidatos e seus hostes foi capturado pela sociedade, o que indica que continuará pelos próximos meses, ainda que os perdedores aceitem os resultados. Diante da situação caótica das finanças do Brasil e dos demais entes da Federação, seria bom que os vencedores optassem por pregar a união em torno do bem comum. Isso nos lembra o romance de Machado de Assis “Memórias Póstumas de Brás Cubas” que diz: “ao vencedor, às batatas”. Mas como extirpar o revanchismo que irá se instalar?

O próximo presidente eleito não pode prescindir de promover a união de políticos e sociedade ao redor de um projeto de reformas da sociedade, alertando, inclusive, para o sacrifício necessário de algumas camadas da sociedade. Mas que projetos de reformas seriam esses?

De forma geral, os candidatos seguiram todo o tempo dissociados da realidade fazendo declarações de campanha, anunciando 13º salário para o Bolsa Família ou aumento de 20% logo em janeiro, novo projeto de Reforma da Previdência, mas sem explicitar qual (por si só, já teríamos um substancial atraso na votação). Reforma Tributária e Fiscal sem nenhum estudo de impacto, isenção de Imposto de Renda até cinco salários, gastar reservas para ampliar investimentos, etc.

Depois de 28 de outubro, terá chegada a hora da verdade, quando o novo presidente terá que começar a anunciar sua equipe de governo, seus planos e prioridades e profundidade e celeridade das reformas que terão que fazer. Ou seja, terão que cair na real, e essa realidade não é de invejar ninguém. Federação e Estados estão, no geral, com suas contas desequilibradas, precisarão de ajuda federal e a federação não tem muitas condições de ajudar. Quem ganhar – e tudo indica que será Bolsonaro – terá que mostrar resultados no curto prazo, digamos aqueles cem dias de tolerância da sociedade, a partir dos quais sua popularidade pode declinar, perdendo apoios para implementar mudanças.

No curto prazo, essa equipe estará respaldada na quantidade de votos obtidos nas urnas, mas, se os resultados não vierem, terá que negociar de forma muito mais dura com o Congresso Nacional, que pode cobrar caro por isso. Bolsonaro deve conseguir boa base de apoio na Câmara, mas, no Congresso, parece mais complicado, principalmente se forem tentadas reformas constitucionais. Terá que deixar o centrão fazer o presidente da Câmara e negociar com a indicação do presidente do Senado.

Por mais que as urnas coloquem o novo presidente em boa posição no início do mandato, o tempo é crucial e deve ser utilizado o talento político para negociar apoios. Pelo lado de administrador, não invejamos a posição de quem assumir os cargos de presidente e/ou governadores. Do ponto de vista de desafio, pode tornar tudo um caso de sucesso. Não custa lembrar que Barack Obama assumiu a presidência dos EUA em uma situação bastante crítica e terminou seus dois mandatos entregando uma nação recuperada.