Com que roupa?

Já que muitos artistas tem mostrado incondicional apoio ao PT, inclusive com novas adesões como Jô Soares, nada mais justo que nos lembrarmos do inesquecível Noel Rosa e sua música “Com que Roupa”.

A questão parece ser de com que roupa o governo irá para o samba que foi convidado. Com a mudança ocorrida no ministério da Fazenda, com a saída de Joaquim Levy e entrada de Nelson Barbosa, a questão parece ser relevante, já que se fosse para seguir na forma e conteúdo pretérita não seria necessária a troca de ministros. Então, com que roupa a presidente Dilma e Nelson Barbosa irão?

Nesse início de ano começaram as pressões por parte do PT para que a presidente elabore nova “Carta ao Povo Brasileiro” meio às avessas do que fez o ex-presidente Lula antes de assumir seu primeiro mandato. Lula deu ênfase a proteção dos mercados garantindo que não mudaria muito do que FHC vinha fazendo. Agora, o PT gostaria de ver o oposto e mais à esquerda, com medidas populistas de crescimento e maior intervenção do Estado na retomada do crescimento.

No final de 2015, já tivemos algumas indicações disso com liberações de recursos, alívio para governadores (já estava previsto) e pagamento das pedaladas no último dia do ano. Nesse início de 2016, seguimos tentando avaliar quais serão as novas diretrizes de política econômica gestadas pela presidente e seu ministro Barbosa. Aparentemente tal informação ficará mesmo para o início de fevereiro, adiando ainda mais as mudanças.

Apesar disso, uma coisa parece certa: não há recursos disponíveis sem que o governo volte a ficar tentando em fazer uso dos pagamentos recentes feitos ao BNDES, BB e FGTS; e ainda para a Caixa Econômica. Mesmo considerando o aumento da carga tributária e incidência futura da CPMF, ainda assim seria difícil amealhar recursos. Do exterior, mesmo com o dólar acima de R$ 4,00, vai continuar sendo complicado contar com algum fluxo, já que existem indefinições graves sobre abertura de processo de impeachment da presidente, governabilidade e credibilidade do segundo mandato.

Vamos seguir perseguindo o ajuste fiscal naquele nível mínimo de 0,5% do PIB e sem novas maquiagens? vamos efetivamente conter gastos de custeio e alguns programas sociais? Vamos nos aproximar mais dos investidores locais e internacionais? Vamos franquear autonomia ao Banco Central para aproximar a inflação de 2016 do teto e a de 2017 do centro da meta? Ou será que quase nada disso será observado?

Essas são questões cruciais que vão merecer grande reflexão dos investidores. Retornar com políticas passadas de estimular o consumo e intervenção do Estado parece uma grande loucura que podem até melhorar o curto prazo, mas não será nada além de um “voo de galinha”, com objetivo precípuo de melhorar a performance da base de apoio para as eleições de final de 2016.

Nesse ponto cabe citar frase de James Freeman Clarke, escritor e teólogo do século XIX que dizia “um estadista pensa nas próximas gerações, um populista nas próximas eleições”.

Por enquanto, ficamos com o nosso popular Noel, “pulando feito sapo, pra ver se escapo dessa praga de urubu” de nova contração do PIB em 2016 e inflação elevada.

Por Alvaro Bandeira – Economista-chefe do modalmais