Nas últimas semanas, a situação do comércio internacional só piorou com a imposição de tarifas pelos EUA e retaliações de outros países. Como a gigante China à União Europeia e até o vizinho Canadá. Isso vem mantendo os mercados de risco com os nervos à flor da pele.

Como temos dito, no final da linha, os reflexos serão de desaceleração na recuperação da economia global e protecionismo exacerbado dos países. O corolário disso é que teremos mais desequilíbrios no segmento de commodities e dificuldades de abastecimento. Citamos, por exemplo, cálculos feitos pelo governo americano de que o Brasil teria que ampliar suas exportações em 60% para abastecer a China de soja, sem o fornecimento americano. Isso vale para outras commodities também.

É certo que alguns países podem se beneficiar no curto prazo desse desbalanceamento no fornecimento, seja em toneladas exportadas de produtos primários, seja no que tange a preços de algumas commodities. Porém, essa é uma postura em que todos acabam perdendo no médio e longo prazos. Basta ver o comportamento recente dos mercados acionários em todo o mundo, apurando enorme volatilidade e queda de preços dos ativos.

Como temos afirmado, o esquema protecionista adotado pelos EUA, mais que o desequilíbrio da balança comercial chinesa em relação a dos EUA, tem respaldo nos segmentos tradicionais da economia americana que apoiaram a eleição de Donald Trump e com a hegemonia tecnológica. Fez parte dos discursos de Trump alavancar a indústria tradicional americana e o roubo de propriedade intelectual que acusa a China, faz parte da preocupação de perder a hegemonia em tecnologia.

A China tem investido fortemente no desenvolvimento de tecnologia e para acelerar esse processo, passou a investir fortemente em setores, e dessa forma captura todo o desenvolvimento tecnológico, não exatamente roubando propriedade intelectual e conseguindo cobrir e queimar etapas. Basta ver o que a China tem feito no desenvolvimento de maquinário para construção pesada e outros setores.

Ao abrir disputas comerciais com a China, o governo de Trump abriu disputas com outros países e grupos. O vizinho Canadá já anunciou retaliações no valor de US$ 16,6 bilhões e a União Europeia acenou mais recentemente retaliações que poderiam chegar a US$ 300 bilhões, caso Trump cumpra o que vem dizendo de retaliar a indústria automotiva europeia. Aliás, durante o final de semana, Trump declarou que os EUA têm os piores acordos comerciais do mundo, e que é terrível o que a União Europeia faz com os EUA.

Por enquanto, o clima é de ainda tentar contornar diferenças e achar um denominador comum do comércio internacional. Porém, a sensação é que os EUA desejam impor novas relações comerciais e não exatamente negociar acordos. Se isso for verdade, estaremos a poucos passos de uma guerra comercial e de protecionismo entre países.

Definitivamente, isso não seria positivo para os países emergentes com menor potencial de barganha e dentro de um contexto de mudanças nas políticas monetárias de países desenvolvidos. Para os mercados não haveria ainda nada de positivo na precificação dos ativos e os mercados seguiriam com grande volatilidade.

Vai ser preciso vislumbrar como essa crise evoluirá. Quem melhor destrinchar terá nas mãos boas possibilidades de obtenção de lucros extraordinários.

Por Alvaro Bandeira
Sócio e Economista Chefe home broker modalmais