Diálogo ouvido por um articulista na manhã de estreia do Brasil na Copa de 2018: “vou torcer para um país honesto ganhar a Copa do Mundo, e não pelo Brasil corrupto”.

O problema é que no passado as classes mais baixas não tinham esse tipo de consciência e a Copa era sempre uma válvula de escape de nossos dirigentes. Chego a lembrar que na época da ditadura, presidentes militares chegaram a querer interferir na convocação e escalação de jogadores. O diálogo ouvido foi produzido por um entregador de triciclo.

Não precisamos politizar a Copa do Mundo. A copa é do país e de todos nós, e não de presidente, candidatos a presidentes ou políticos. Portando, podemos torcer sem constrangimento e esquecer a situação por alguns dias. Isso não irá comprometer nossa postura e nem o voto de final de ano.

No nosso entender, o principal problema está na seguinte situação: quando a população conhece de “cor e salteado” todos os nomes de ministros do STF (e de alguns outros tribunais), e desconhecem os nomes dos 23 convocados para a seleção de Tite; alguma coisa parece estar fora de ordem. Se perguntarmos para um cidadão americano, alemão ou inglês o nome de um único membro da Suprema Corte de seus país, provavelmente não saberão dizer. E nada de errado com a cultura, já que a suprema corte nunca é protagonista.

Mas o que tudo isso tem com a situação do país e dos mercados, sempre objeto de nossos comentários nesse espaço? A estreia do Brasil foi pífia na Copa e isso só ressaltou mais esse desvirtuamento. Só ajudou a destacar o lado negativo do país e processo eleitoral, e iniciamos outra semana sob estresse. Uma semana bastante complicada.

Antecipadamente o Bacen anunciou que faria colocação de US$ 10 bilhões em operações de swap, mas isso não significa nada, já que deixou janela aberta para atuar com operações adicionais se a situação assim exigir. Igualmente, o Tesouro Nacional anunciou operações com títulos de renda fixa, com objetivo precípuo de reduzir as pressões dos juros de títulos de mais longo prazo. Ocorre que durante a semana teremos mais uma reunião do Copom sobre política de juros (no dia 20 de junho), com consenso de manutenção, mas com alguns analistas acreditando que o Copom pode novamente surpreender e elevar os juros Selic.

De nossa parte, não acreditamos neste fato na reunião. Não seria mais 0,25% ou 0,50% que mudaria a situação de câmbio pressionado. Para tal, seria preciso alta maior de juros, guardadas as proporções, nos moldes do que fizeram Turquia e Argentina. Também não achamos possível por conta da situação bem diferente. Nossa balança comercial é superavitária em cerca de US$ 58 bilhões em 2018, nosso déficit em conta corrente é baixo em termos de participação no PIB e os investimentos diretos no país cobrem com ampla margem o déficit em conta corrente previsto.

Além disso, nossas reservas giram ao redor de US$ 382 bilhões e o Bacen tem ainda à disposição muitas outras maneiras de seguir tentando retirar a volatilidade do câmbio, antes de tomar essa decisão de elevar juros. Pode voltar com leilões de linha e até vender câmbio no pronto. De outra feita, elevar juros de forma mais acentuada bateria forte na previsão de crescimento, que de resto já mostra fraqueza recente. Só pegando a última pesquisa Focus divulgada em 18 de junho, o PIB previsto de 2018 declinou de 1,94% para 1,76%, e com cara de que deve piorar ainda mais nas próximas edições da pesquisa.

Isso, forçaria ainda mais as dificuldades de arrecadação do governo em 2018, mudaria e tornaria o déficit primário e regra de ouro mais problemáticos de serem alcançados. Se o Bacen levasse juros de forma mais forte levaria o PIB na direção da estagnação/recessão.

Vamos torcer para que o Brasil ganhe de forma inconteste na próxima sexta-feira espantando o pessimismo do momento. Vamos seguir acreditando também que o país tem jeito do ponto de vista econômico e que teremos um novo presidente comprometido com reformas.

Por Alvaro Bandeira
Sócio e Economista Chefe home broker modalmais