Nessa semana que passou o governo Temer finalmente anunciou o déficit público do governo central projetado para o ano de 2017. Estima déficit de R$ 139 bilhões, cerca de R$ 30 bilhões inferior ao que conseguiu aprovar para o exercício em curso. Os agentes respiraram aliviados com a notícia.

Na prática foi como “retirar o bode da sala”. Segundo o noticiário a equipe econômica queria déficit de R$ 140 bilhões, enquanto a área política gostaria de maior espaço coma eventual manutenção de déficit de R$ 170,5 bilhões ou somente um pouco menor. Mas será que essa dicotomia existiu realmente, ou foi só um teste para tornar os R$ 139 bilhões de déficit festejado?

Com a decisão não só reduziram o déficit como deram margem para a apreciação de que a equipe econômica está prestigiada. Porém, uma leitura mais serena indica que ainda estamos longe de correção mais forte de rumo, e o Bacen pode demorar mais da conta, se quiser reduzir os juros tecnicamente. Mesmo que o governo Temer consiga aprovar o teto de gastos limitado à inflação, ainda assim teremos gastos expansionistas, comprometendo a queda futura dos juros.

Visto por esse ângulo, somente o câmbio mais baixo ajudaria na inflação e por via de consequência na redução dos juros. Todavia, a taxa de câmbio não poderia ser muito baixa para não pressionar o setor produtivo e exportador, que tem sido sacrificado em demasia. Alguns empresários com endividamento em moeda forte poderiam até ficar silentes, pois melhoraria os números de sua empresa estimulando precificação positiva de suas ações.

De outra feita, também reduziria o interesse daqueles investidores mais arrojados na aquisição de empresas por aqui e /ou investimentos em projetos, que o governo tanto deseja. Sem contar com aqueles que aproveitando a liquidez internacional e juros muito maiores por aqui, trouxeram fluxo de recursos.

O que acaba ficando de tudo isso é que o Bacen parece algo satisfeito em manter a taxa de câmbio no intervalo entre R$ 3,20 e R$ 3,40, atuando na redução da exposição sempre que a taxa vai se aproximando do limite inferior e, principalmente, reduzindo a volatilidade. No momento, o governo provisório reluta em propor medidas mais duras, aguardando definição do processo de impeachment da presidenta afastada. Somente depois disso é que poderíamos ter medidas mais concretas de ajuste, incluindo aí, obrigatoriamente, tratamento mais adequado para o rombo da Previdência.

O mesmo se dá com relação à necessidade de o governo dispor de receitas adicionais para equilibrar o orçamento. Fala em obter algo como $ 55bilhões, com concessões privatizações, abertura de capital; mas para tal terá que tornar mais atrativo o investimento externo proporcionando taxas internas de retorno (TIR) melhores. Caso isso não ocorra ainda disporá da alternativa de ampliar a carga tributária, não sem muito ruído por parte da sociedade.

Os mercados perceberam toda essa situação, juntaram os desequilíbrios externos e começaram a rever posições. Ocorre que a situação está tão deprimida que é possível inferir alguma melhora, desde que a credibilidade e confiabilidade do governo cresça. Porém, alguns indicadores ainda vão piorar antes de assumirem postura mais amigável. E daí deriva o quadro de que continuaremos a ter grande volatilidade nos mercados de risco, mas possivelmente dentro de tendência de recuperação de mais longo prazo.