GUINADA DE 180 GRAUS
Alvaro Bandeira é sócio e economista-chefe do banco digital modalmais
Inevitável lembrar daquela artista que numa entrevista disse que daria uma guinada de 360 graus em sua vida. Antes fosse assim para o Brasil, pois voltaríamos ao mesmo lugar. Mas, não foi nada disso e tivemos de dar guinada de 180 graus.
O coronavírus nos pegou justamente no momento em que o país se preparava para mudanças radicais, levando a cabo reformas estruturantes importantes que certamente tornaria nossa economia mais confiável, mais competividade e melhoria a produtividade. Começando pela reforma da Previdência, passaríamos pelas reformas tributária e administrativa, chegaríamos as privatizações em massa, no pacto social; e ainda uma infinidade de mudanças no plano micro, não menos importantes.
Pois bem, a pandemia do coronavírus promete mudar o mundo em diferentes aspectos, assim que literalmente houver tempo para aprendermos os ensinamentos, mudando as relações humanas, o entendimento entre países e as relações comerciais do planeta. Vai mudar também no plano micro o relacionamento e a forma de comunicação das pessoas, nos tornando bem mais acessíveis e cordatos em nossas relações humanas, empresas e empregados mais próximos. Certamente a pandemia deixara muitas lições para ser apreendidas por todos nós. Porém, a que custo?
O planeta estará em recessão em 2020, exceto talvez a China onde tudo isso começou, mas também com enormes perdas, já que seu crescimento provavelmente será reduzido em cerca de 3%. O resto do mundo e em todos os continentes entrarão em recessão, e coitado dos países emergentes, principalmente aqueles que estavam desorganizados em suas finanças públicas, ou aqueles que estavam na direção correta para buscar o equilíbrio.
Aqui, o esforço que teremos que fazer mudou drasticamente as prioridades do governo de Bolsonaro e do ministro Paulo Guedes. O ministro da economia Paulo Guedes fala de esforços generalizados que já montam a R$ 750 bilhões e que soam ainda insuficientes para domar os problemas da economia. Precisamos de recursos urgentes para a saúde, precisamos proteger os vulneráveis da saúde e trabalhadores informais, as empresas de pequeno e médio porte (as grandes também); pois será com eles que o país buscará mais à frente a recuperação economia.
É um esforço de guerra contra um vírus não tão letal do ponto de vista da saúde, mas absolutamente cruel para as economias. A maior economia do planeta terá recessão, a zona do euro com sua locomotiva Alemanha em recessão profunda, a Ásia profundamente afetada e América latina e seus emergentes sofrendo muito.
Aqui, esqueçam o déficit primário que poderia ficar em algo como R$ 80 bilhões, pois provavelmente passaremos de R$ 350 bilhões. Esqueçam também aquele crescimento previsto de 2,5% (nada para encher os olhos), e vamos considerar o oposto disso, com uma recessão de igual tamanho ou maior, e ainda o nível de endividamento abaixo de 80%. Esqueça por hora todas as reformas, o pacto federativo, a queda do desemprego (vai subir para mais de 13%/14%), o processo de privatização e venda de ativos, os investimentos externos e de empreendedores locais e a Bovespa chegando lá para os 130 mil/140 mil pontos de seu índice. Tudo isso ficou para depois.
E o “depois”, terá que ser de ajuste ainda mais duro para colocar o Brasil nos eixos. Será preciso que nessa transição seja tomado o cuidado de separar tudo que foi circunstancial, do que seria o ajuste social estrutural, e trabalhar nessas duas vertentes simultaneamente. Dessa maneira, não teremos direito de errar em manter políticas contracíclicas por muito tempo, a exemplo do que foi feito no governo do PT. É fundamental não esquecer as reformas que estavam no pipeline, pois será com elas que recuperaremos nossa credibilidade e tornar o Brasil crível.
Mais uma vez vamos ter que apostar na vontade política de nossos dirigentes de produziram as mudanças de que necessitamos. Vamos continuar torcendo!
Alvaro Bandeira