Começamos a semana ainda reverberando as indefinições de prioridades do novo governo Bolsonaro que toma posse em janeiro, e dificuldades de proposição de agenda positiva. Além disso, foi possível apurar posicionamentos transversos por falta de unificação de discurso entre os integrantes do núcleo duro de Bolsonaro.

Para completar, o Senado ainda aprovou a pauta bomba de reajustar salários dos ministros do STF, o que significa espalhar esses reajustes por toda a cadeia do judiciário e legislativo, quer no âmbito, federal, estadual ou municipal. O acréscimo de dispêndio previsto atinge R$ 6,0 bilhões, com o presidente do STF, Toffoli, dizendo que pode ser compensado com suspenção do auxílio moradia, que fica muito aquém do efeito reajuste. Foi aprovada ainda a rota 2030 para a indústria automotiva acelerar investimentos em segurança e aprimoramentos, o que pode significar arrecadação menor em R$ 2,0 bilhões.

Nessa mesma toada o governo ainda não bateu o martelo em postos chaves como a presidência do Banco Central, Caixa Econômica e Banco do Brasil. Enquanto para o BNDES está sendo comentada a volta de Joaquim Levy, com passagem pelo governo de Sérgio Cabral e como ministro de Dilma. Segundo a imprensa, seriam mantidos nos cargos Ivan Monteiro como presidente da Petrobras e Mansueto de Almeida como secretário do Tesouro ou como secretário da Fazenda; ambos com atuação no governo de Michel Temer.

Igualmente ainda não sabemos que ministério serão fundidos no Governo de Bolsonaro, que podem sair dos atuais 29, para algo próximo de 18 ministérios na próxima gestão. Alguns com conflitos de gestão. Parece haver cobrança extrema de atitude em relação ao governo Bolsonaro, considerando que não faz nem 15 dias que tivemos o segundo turno. Durante essa semana, que começou hoje, Bolsonaro volta à Brasília para encontros políticos e passagem pelas equipes encarregadas da transição. E poderemos ter mais definições sobre o perfil do novo governo, que muitos esperam realmente novo.

Poderemos ter aquele envio de prioridades ao presidente Temer, que poderiam ser encaminhados para votação no Congresso, antecipando um pouco necessidades prementes. Falamos especificamente da reforma da Previdência de Michel Temer, onde alguns itens poderiam ser aproveitados, queimando etapas importantes de um novo projeto do governo que demandaria muito tempo para discussões em comissões, votações e aprovação. Temer prestaria grande favor se não sancionasse o reajuste dos ministros do STF, aprovado na calada da noite. Mas isso poderia implicar em derrubada do veto presidencial, deixando Temer com saída frágil e com a má vontade expressa do Judiciário.

Para piorar um pouco mais esse quadro descrito, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso voltou a falar sobre Bolsonaro: “Fui senador, ministro, presidente, mas nunca o vi [Bolsonaro] enquanto era deputado. Nunca escutei sua voz, não ouvi ele dizer o que pensa. Não se sabe realmente o que ele vai fazer. Creio que nem ele mesmo o saiba”. FHC do alto de seus dois mandatos e de sua intelectualidade poderia prestar bons serviços ensinando Bolsonaro a ser presidente, já que governará o país pelos próximos quatro anos. Goste o ex-presidente ou não.

O Brasil precisa de união, já que as medidas dedicadas a colocar o país em ordem serão duras para o conjunto da sociedade e com uma oposição que sabe fazer seu trabalho. Precisamos ajudar, torcer e desejar sorte para que consigam passar reformas e ajustes essenciais, começando pela reforma da Previdência e tributária. Mas passando por outros igualmente importantes como a redução do tamanho do Estado, nível de endividamento crescente e atração de investimentos.

Por Alvaro Bandeira
Sócio e Economista Chefe home broker modalmais