Inverno começando quente
Por Alvaro Bandeira
Economista-Chefe do banco digital modalmais

Iniciamos o mês de julho trazendo o inverno que promete ser quente. Não estamos falamos da influência do El Niño, que deve deixar as temperaturas do país mais amenas nesse inverno, mas sim do cenário econômico global que ficou bem mais suave nesse início de mês.

A reunião do G-20, com as maiores economias do planeta ocorridas no Japão foi bastante “ZEN”. Com o relatório final expressando que a recuperação econômica global se dará com a continuidade da política monetária acomodatícia, mas ressaltando o risco das tensões geopolíticas e do comércio, via proteção tarifária. O FMI (Fundo Monetário Internacional) reconheceu que a economia global atravessa momento difícil, e força carga e responsabilidade sobre os Bancos Centrais. Disse que é preciso ajustar políticas. Da mesma forma, as vinte economias concordam sobre a importância da Organização Mundial do Comércio (OMC), e apoiam a reorganização do órgão multilateral.

Do lado da diplomacia, Donald Trump estava em seu período mais “light”. O almoço de trabalho com a equipe chinesa, incluindo o presidente Xi Jinping, foi bem produtiva segundo o noticiário internacional. Foram anunciadas a retomada das negociações comerciais e propriedade intelectual e suspensa a tarifação adicional sobre produtos da China. A China se comprometeu ainda a compra de produtos agrícolas dos EUA, enquanto discutem os termos de um acordo definitivo. Os EUA liberaram também a gigante de tecnologia chinesa, Huawei, para comprar produtos de tecnologia americana. Voltando à diplomacia, as tensões foram mesmo com a Turquia que divulgou que vai comprar sistemas de defesa da Rússia. Os EUA não concordam. Tensões ainda no Oriente Médio envolvendo novamente os EUA e a Arábia Saudita contra o Irã por conta da atividade de enriquecimento de urânio. Isso traz implicações sobre o petróleo no mercado internacional.

No Brasil, o foco segue sendo o trâmite da reforma da Previdência que começa a sofrer algum atraso, inicialmente decorrente da ainda complicada adesão de Estados e Municípios. Com leitura do parecer complementar prevista para essa semana (de 1 a 5 de julho). Mas apertada para votação em primeira instância na Câmara pelo recesso do Congresso Nacional marcado para o meio do mês. Temos que considerar ainda que o Brasil tem um passado de relaxamento após fatos importantes. A Previdência é só uma das reformas que precisa começar logo, de sequência enorme de outras reformas macro e microeconômicas. Portanto, não podemos relaxar e acreditar que a apenas a reforma da Previdência já será a “salvação da pátria”.

Os mercados reagiram positivamente a este movimento e também ao acordo firmado entre o Mercosul e a União Europeia. Por enquanto, mais uma peça boa de marketing, que de efeito prático, apesar de ser positivo. Os efeitos, se sentidos, só serão no médio para longo prazo, já que cotas e tarifas ainda existirão por um bom tempo, demorando até dezoito anos. Além disso, temos que considerar as diferenças nas economias dos países do bloco Mercosul e da União Europeia, onde será difícil concatenar a união aduaneira.

Não podemos esquecer ainda as normas comuns que terão de serem baixadas. Por exemplo, no que tange aos agrotóxicos, onde a União Europeia proibe cerca de quinze produtos utilizados na agricultura brasileira. Ou seja, para futuro é certamente um marco, mas vai demorar a fluir.

Sem sombra de dúvida que o mês de julho começou bem melhor e mais otimisma. Tanto é fato que o Credit Default Swap (CDS) do Brasil, que é uma espécie de seguro de crédito, já está no menor nível desde janeiro de 2018.