Investidores Precavidos
Por Alvaro Bandeira
Economista-Chefe do banco digital modalmais

Os investidores em todo o mundo parecem ter adotado postura de precaução em relação aos mercados de risco de forma global. Existem muitas questões pendentes de definição que trazem a aversão ao risco novamente à tona.
No âmbito externo, os investidores aguardam nova rodada de negociações entre chineses e o governo americano sobre comércio bilateral, tarifação e propriedade intelectual. No último final de semana (15 a 19 de julho), as informações disponíveis davam conta de contato telefônico entre o secretário do Tesouro americano, Steve Mnuchin, e seu correspondente na China, com conotações bem positivas. O fato pode ser complementado com consultas aos agricultores americanos com novas compras de produtos, situação objeto de reclamação de Trump de que não estavam fazendo o combinado.
O Brexit segue sem definição. Aparentemente, Boris Johnson será designado primeiro ministro britânico no lugar de Theresa May, ele que sempre foi favorável ao Brexit de qualquer maneira. Mas o parlamento britânico votou que não querem Brexit sem acordo, o que impõe certa “camisa de força” ao novo primeiro ministro. Do outro lado, a União Europeia e Comissão Europeia não querem reabrir negociações além das feitas na gestão de Theresa May. Enquanto em seu discurso pós nomeação, a nova presidente da Comissão Europeia – Úrsula Von Der Leiyen – disse aceitar negociar. De qualquer forma, seria danoso um Brexit sem acordo. A designação de Boris Johnson pode deflagrar saída de vários ministros, incluindo o das Finanças.
Temos as tensões entre os EUA e o Irã, agora engrossada pelos incidentes de apreensão recíproca de petroleiros do Irã e do Reino Unido. Apesar disso, o Irã se disse pronto para negociar com os EUA sobre acordo nuclear, enquanto a Alemanha advertiu o Irã sobre a escalada de tensões no Golfo Pérsico. A França tenta mediar uma solução que envolva o cumprimento do acordo nuclear, cessando o enriquecimento de urânio acima do previsto.
O fator mais importante é a expectativa dos investidores acerca da postura dos principais bancos centrais do mundo sobre flexibilização da política monetária e/ou reduções da taxa de juros. No que tange ao FED, Donald Trump segue pressionando diariamente pela redução dos juros dizendo que o FED está desorientado e que os juros altos inibem a expansão da economia e dificultam a competitividade. O FED ainda reluta, mas deve reduzir juros pelo menos duas vezes em 2019. O Banco Central Europeu (BCE), que faz reunião em 25 de julho e o Banco Central do Japão (BoJ) são mais pragmáticos e devem agir sobre a política monetária com presteza.
Dois outros fatos impedem situação mais agressiva: 1) as férias de verão no hemisfério Norte reduzem o ímpeto dos investidores e retiram parte da liquidez dos ativos, implicando em alguns momentos e má formação dos preços dos ativos de risco 2) a safra de resultados do segundo trimestre altera pontualmente os preços dos ativos, especialmente nessa semana de divulgação por empresas líderes, inclusive no Brasil.
No Brasil, temos que considerar que o recesso do Legislativo e Judiciário reduz o volume do noticiário político e deixa em compasso de espera as reformas que exigem o concurso dos parlamentares. A reforma da Previdência terá que esperar até os primeiros dias de agosto para o segundo turno na Câmara e depois duas votações no Senado, podendo haver ainda alguma desidratação. Pelas contas do secretário de Previdência, Rogério Marinho, a economia fiscal estaria agora em R$ 933,5 bilhões em dez anos, número ainda muito positivo, na visão dos investidores. Mas há o temor que grupos organizados da sociedade possam fazer lobbies para manter ou até preservar benefícios.
O Executivo promete colocar na rua algumas medidas pontuais para minimizar a desaceleração da economia, algumas que prescindem da participação do Legislativo e outras de efeito efêmero, como a liberação de recursos do FGTS. O governo promete novidades na semana e até o final do mês de julho. A promessa deve manter os mercados acessos.
Mas o que está faltando é a volta dos recursos de investidores externos. Investidores que até o dia 18 de julho tinham retirado recursos no montante de R$ 2,46 bilhões da Bovespa. Deixando a saída liquida de recursos em 2019 em R$ 6,35 bilhões. A alta foi feita quase que exclusivamente pelos investidores locais, mas sem a presença dos estrangeiros vai perdendo força, depois de ter atingido recorde de pontuação em 106.650 pontos do Ibovespa. A presença desses investidores só deve se confirmar na hipótese de termos uma boa reforma da Previdência, seguida de outras reformas igualmente importantes para levar a economia ao rumo correto.