Em vários dos nossos comentários abordamos a tese que o pior para o Brasil seria manter o “status quo”, e isso produzir sangria desnecessária. Nesse momento, o presidente Temer se agarra ao poder de todas as formas, e isso pode ser interpretado como início da sangria.

Pelo menos essa tem sido a leitura dos agentes do mercado e a situação, a despeito de alguns números favoráveis em tese de conjuntura, vai lentamente se deteriorando. O presidente obteve na semana passada uma “vitória de pirro” com a votação do TSE com placar de 4×3 favorável a não impugnação da chapa. “Vitória de pirro”, pois ao que parece a PGR não dará descanso ao presidente encaminhando denúncia sobre obstrução de justiça, formação criminosa dentre outras.

Estimulado pela decisão do TSE, o presidente iniciou contraofensiva, retirando o véu sobre a Lava Jato, e como consta do noticiário, fazendo carga contra a operação e mirando no ministro do STF, Edson Fachin. Isso suscitou, inclusive, manifestação escrita da presidente do STF, Carmem Lúcia e de Gilmar Mendes; esse objeto da má vontade da sociedade pelo voto de minerva no TSE.

De outra feita, o PSDB parece encurralado pelo grupo denominado “cabeça preta” que quer o desembarque do partido da base de apoio, lutando contra posição defendida por próceres do partido.

Quando falamos de sangrar a economia, exemplificamos com os mercados na sessão de início da semana. A taxa cambial vazou a cotação de R$ 3,31 (que não acontecia faz tempo) e o índice VIX (do pânico) das ações brasileiras chegou a subir mais de 8,6%. Isso mesmo considerando números mais amenos mostrados pela pesquisa semanal Focus, do Banco Central. A pesquisa trouxe inflação em queda para 2017 e 2018 (respectivamente 3,71% e 4,37%), o que teoricamente induziria expectativa de nova queda da Selic de 1,0%, diferente do que se passou a esperar depois da divulgação da última ata.

Igualmente, a pesquisa Focus trouxe números melhores para o segmento externo, com o saldo comercial de 2017 subindo para US$ 57,8 bilhões e queda do déficit em conta corrente para US$ 24,2 bilhões, esse último amplamente coberto pelo investimento direto no país. O único dado destoante ficou por conta da previsão de encolhimento da produção industrial de 2017 para +0,94%, vindo de anterior em +1,09%.

Nesse ponto, abstraímos de comentar que boa parte da queda da inflação e também da performance do saldo da balança comercial podem ser atribuídas ao processo recessivo em curso, desemprego elevado e a ótima previsão para o agronegócio, com expansão da safra em quase 30%. Ou seja, a melhora de indicadores parece mais episódica que real, ao mesmo tempo em que identificamos o governo mais preocupado em se manter, do que fazer acontecer.

Já há quem fale em “Dilmarização” do governo Temer, querendo traçar paralelo com o período em que a ex-presidente tudo fez para não cair. O presidente Temer parece estar mais preocupado em seduzir 172 deputados e bloquear a denúncia da PGR, do que engendrar reformas constitucionais ou não.

Com isso, fica cada vez mais difícil aprovar a reforma trabalhista em bases que valham realmente, o mesmo acontecendo com a crucial reforma da Previdência. Essas são as duas principais e não devem conseguir alterar muito o quadro de déficit do país, muito mais no curto prazo.

O governo fala em déficit de R$ 139 bilhões em 2017, mas na situação que estamos isso não será possível sem mais cortes de gastos (investimento) e/ou criação de mais impostos. Muito mais ainda por conta de o presidente estar abrindo o saco de benesses para políticos e talvez para a classe média.

Enquanto isso, o Brasil vai sangrando.

Por Alvaro Bandeira
Sócio e Economista Chefe home broker modalmais