Mercados ainda em polvorosas
Por Alvaro Bandeira
Economista-Chefe do banco digital modalmais

Nas últimas semanas, os mercados de risco em todo o mundo estão incorporando tensões variadas, e no Brasil não é diferente. Com isso, a Bovespa até 17 de maio, já mostrava perda no mês de 6,6%, confirmando a síndrome do mês de maio ser negativa. Caso se confirme, será o décimo ano consecutivo de perda. Como já estamos entrando no terceiro decêndio, o resultado tende a ser mesmo esse; confirmando a profecia.

No mundo, temos diversas fontes de preocupação para os investidores. O tema recorrente é o Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia), com a primeira ministra Theresa May querendo votar projeto “ousado” logo no início de junho. Caso seja novamente rejeitado pelo parlamento britânico, muito possivelmente May terá que deixar o comando, abrindo espaço para a oposição. Acrescentando que no último final de semana (de 17 a 19 de maio), tivemos várias manifestações pela Europa. Por quanto da eleição do parlamento europeu, inclusive com manifestações contra o Brexit.

Os EUA de Donald Trump, sempre ele, são motivo para novos estresses com várias frentes de conflitos abertas. Antes de tudo, o tema já vetusto das negociações comerciais com a China, tendo como principal vertente (na nossa visão) a hegemonia tecnológica. Falamos disso há meses, e agora ficou mais claro com as restrições impostas à gigante de tecnologia Huawei. Na semana passada, Trump limitou ainda mais a atuação da empresa. Pede a extradição de sua maior executiva ao Canadá, e começamos o novo período com novas restrições impostas pelo Google.

Felizmente Trump suavizou ao adiar a implantação de tarifas majoradas para veículos importados pelos americanos por 180 dias. E de forma conjunta com o Canadá retirar tarifação sobre metais já nesse início de semana. Porém, o mesmo presidente americano voltou a usar tom ameaçador em relação ao Irã, com a Arábia Saudita fazendo coro ao dizer que “não ficará de mãos atadas”.

Podemos anexar ao fato a desaceleração econômica da zona do euro com a Alemanha mais devagar e crescendo anualizada pelo PIB divulgado do primeiro trimestre somente 0,7% e com a inflação em elevação. Para a zona do euro, crescimento anualizado pelo primeiro trimestre de 1,2%. Enquanto isso, o BCE demonstra concluir a união econômica e monetária da região, que é absolutamente crucial para redução da vulnerabilidade. O melhor exemplo fica por conta da Itália que deve vazar a relação dívida/PIB acordada e nas votações da região. Quase todas com votos anti establishment.

Vindo para o Brasil, o governo de Bolsonaro parece atravessar o pior momento desde a posse. Tendo algumas derrotas sucessivas em votações e em comissões, com muitos ruídos produzidos pelo próprio governo, muitas mudanças em ministérios e órgãos do segundo escalão (vide o ministério da Educação). Sem conseguir formatar base de apoio necessária para votar reformas e itens importantes da pauta econômica e entrando em discussões paralelas que só fazem tirar o foco do que interessa efetivamente para o momento, qual seja, a reforma da Previdência em bases aceitáveis.

De outra feita, a dificuldade de aprovar verba suplementar de R$ 248 bilhões para dar continuidade à previdência BPC e outras agrega mais fragilidade ao governo. Além disso, existe toda carga feita contra seus filhos, especialmente o senado Flávio Bolsonaro. Flávio está envolvido, quando ainda era deputado pelo Rio de Janeiro, em processo. Bolsonaro sai em sua defesa. Aparentemente, Bolsonaro está disposto a correr o risco de movimentar “as ruas” a seu favor. Principalmente, na manifestação marcada para o próximo dia 26 de maio, para pressionar o Congresso Nacional que agora quer assumir a liderança da reforma da Previdência. Eventualmente com novo projeto e com a população e o Executivo sem saber onde irá parar, ou se os termos propostos pelo ministro Paulo Guedes seguirão em curso.

É por tudo isso e outros itens não relacionados que os mercados de risco no mundo estão em polvorosa, a economia local paralisada e os investidores estrangeiros retirando recursos da Bovespa. Ao mesmo tempo em que o dólar volta a extravasar a cotação de R$ 4,10. Será preciso que a situação externa suavize. E que no cenário local, os três poderes cheguem a bom termo, para que investidores locais e estrangeiros e empreendedores possam respirar um pouco mais aliviados.