Momento Crucial para os Mercados
Por Alvaro Bandeira
Economista-Chefe do banco digital modalmais

As próximas semanas parecem ser cruciais para a performance dos mercados de risco no Brasil. Tudo por conta de andarmos na contramão dos principais mercados do mundo que sofrem com estresse dos investidores e ampliação da aversão ao risco. No Brasil, ao contrário, atravessamos fase de melhora nas relações entre os três poderes, algo fundamental para que o governo consiga formatar sua base de apoio. E aprovar Medidas Provisórias que estão em votação no Congresso e manter expectativa de conseguir aprovar boa reforma da Previdência.

Vamos começar a semana com votação da Medida Provisória 871 antifraudes do INSS, cujo déficit em 12 meses acrescido dos servidores já atinge R$ 297 bilhões. Somamos o elevado nível de endividamento, com a dívida pública federal (DPF) em R$ 3,88 trilhões, mesmo com o resgate líquido de R$ 69 bilhões em abril. A dívida bruta atingiu 78,8% do PIB, o que é muito elevado para um país emergentes.

Além disso, o governo precisa aprovar até meados de junho uma verba suplementar, originariamente pedida por Paulo Guedes em R$ 248 bilhões, e agora reduzida para R$ 146 bilhões, para ser melhor avaliada pelo parlamento. Se conseguirem os tais R$ 146 bilhões, o governo terá ainda que fazer novos contingenciamentos, pois a arrecadação tem caído, muito em função da desaceleração da recuperação econômica. O fato ficou patente com o anúncio do PIB do primeiro trimestre em contração de 0,2% e a continuidade de indicadores de conjuntura perdendo tração nos dois meses seguintes que vão compor o PIB do segundo trimestre.

Lembramos que as projeções de PIB do ano de 2019 seguem cadentes, inclusive dentro do próprio governo. Entidades do mercado já começam a projetar expansões para o ano inferiores a 1,0%. Apesar de mostrar queda pela 14ª semana seguida, a pesquisa Focus do Bacen ainda veio com alta de 1,13%, mas a tendência é de encolher ainda mais nas próximas pesquisas.

Já que não há muito jeito dos indicadores de conjuntura melhorarem significativamente nos próximos meses, só resta torcer para que o bom momento político perdure e que haja tranquilidade para aprovação de medidas. O presidente Bolsonaro, seus filhos e alguns ministros terão que se conter em declarações polêmicas para que haja ambiente propício para movimentação da equipe econômica e líderes favoráveis às reformas.

Claro que o ambiente externo não pode seguir se deteriorando. No exterior, a situação se apresenta de forma complicada. Só para lembrar, nenhuma definição possível sobre o Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia) e suas consequências, problemas de comando no parlamento europeu com presença de eurocéticos, problemas graves com a Itália. Além de possível quebra da coalizão que o governo do Partido Liga Norte e Movimento Cinco Estrelas e dificuldades de entendimento entre os EUA e a China sobre área comercial e propriedade intelectual. OS EUA ainda querem punir gigantes da tecnologia chinesa como a Huawei, onde se estima que nos EUA mais de 1.200 fornecedores serão afetados.

Além de tudo, vamos pensar na tarifação para a China e agora tarifação para o México. Teremos a perspectiva de encarecimento de produtos e serviços, com os consumidores pagando o preço. Ao acirrar ânimos em direção a uma guerra fiscal, teremos de volta o protecionismo internacional. Batendo de frente em países emergentes e desequilibrando ainda mais o câmbio. Os juros que mantinha tendência de queda (incluindo os EUA) podem sofrer reviravolta, e aí surge um novo problema no elevado nível de endividamento de governos e empresas, um dos pontos mais preocupantes, caso o mundo siga em desaceleração econômica como vem mostrando a Europa e a curva de juros achatada nos EUA.

Juntamos todas as situações expostas neste artigo para exemplificar que mercados de risco seguirão com forte volatilidade e sem formar tendência mais consistente no curto prazo. Para quem gosta de especular parece ser um bom momento, mas convém se precaver com travas para evitar surpresas e bruscas mudanças de rumo dos mercados.

Bons negócios e até a semana que vem.