O mundo parece estar em ebulição e o fato não é positivo para os mercados de risco. Muitas situações estão determinando comportamento atípico dos mercados, pouco condizente com a recuperação econômica global.

Na semana passada, o FMI sempre conservador em avaliar o crescimento global indicou que EUA e zona do euro estavam melhores que em sua avaliação anterior. Com isso, elevou o crescimento de 2018 em 0,2%, respectivamente para 2,9% e 2,4%. Manteve a China com expansão do PIB de 6,6%, quando o país anunciou que cresceu 6,8 no primeiro trimestre anualizado. Até o Brasil foi elevado, apesar da desaceleração de alguns indicadores no curto prazo. O FMI ampliou de 1,9% em sua previsão anterior para 2,3%, enquanto a pesquisa semanal Focus indica alta de 2,75%.

Mas os mercados seguem complicados. Basta ver que o índice Dow Jones se mostra negativo em 2018 em 0,94% e o Nasdaq com alta de somente 3,51%. O Ibovespa, indica alta acumulada no ano de 11,6%, ao mesmo tempo em que o PIB deve crescer de 1,0% para 2,80%, aproximadamente, mesmo com o teto agora em 3,0%. Nesse início de semana, o novo ministro da Fazenda, Eduardo Guardia declarou em Nova York que o crescimento potencial do Brasil sem reformas estaria em 2,3% /2,4%.

Cabe dizer que, no momento presente, inexistem condições para que o Congresso aprove alguma mudança ou reforma mais profunda. Não conseguimos discutir e aprovar a autonomia do Bacen, mudanças no PIS/Cofins e nem o cadastro positivo. Vamos ter que ficar por conta de mudanças pontuais elaboradas pelo Executivo, que não necessitem de votações/aprovações do Congresso.

A privatização da Eletrobras incluída no Programa Nacional de Desestatização empurra a viabilidade para o próximo ano, e era fundamental para equilibrar as contas públicas de 2019. De positivo e, que podemos contar, estaria no governo em fechar acordo com a Petrobras sobre cessão onerosa e, com isso, liberar excedentes de óleo para venda.

No cenário externo, o que anda mesmo incomodando os investidores, é o comportamento dos juros. Toda vez que a taxa de dez anos ultrapassa 2,90% (nessa semana já andou em 2,99%), os investidores ficam estressados. No momento existe a percepção de que o FED pode mesmo realizar quatro elevações de juros ao longo de 2018, seguida de mais três ou duas em 2019. O posicionamento mais rígido de alguns membros votantes do FOMC (Comitê de Política Monetária) do FED ilustra essa possibilidade.

Além do fato de mudar um pouco a direção do fluxo internacional de recursos, acaba alterando a relação de equilíbrio com outras moedas importantes do mundo. Além de alterar também o comportamento do segmento de commodities, especialmente metálicas e petróleo, como vimos na semana anterior.

Temos que considerar os efeitos lembrados pelo FMI (Christine Lagarde foi pródiga em afirmar) sobre a exposição em dólares de instituições financeiras principalmente na Europa e o nível de endividamento citado de US$ 164 trilhões (são trilhões mesmo!), dos quais 2/3 referentes ao setor corporativo. Bom, durante a semana em curso, o BCE (BC Europeu) e o BoJ (BC do Japão) fazem suas reuniões sobre política monetária, e a expectativa é que a distensão seja mantida, o que poderia aliviar tensões de curto prazo.

Notem que não falamos da possibilidade de esgarçamento das relações EUA e Rússia e sobre a possibilidade de atritos comerciais entre EUA e China. Torcemos para que isso não ocorra, pois traria caos aos mercados.

Diante disso, fica relativamente fácil entender porque os mercados estão mostrando zonas de congestão muito forte sem conseguir definir tendência de curto e médio prazos. Porém, longe de afastar investidores, entendemos que isso pode mostrar caminhos e opções para constituição de carteiras de ações com horizontes mais dilatados para retorno, sempre em ações de empresas mais maduras, ajustadas para a situação atual (menor alavancagem) e com boa governança e política de distribuição de resultados.

Mas isso é para aqueles que acreditam que o cenário econômico melhor seguirá prevalecendo.

Por Alvaro Bandeira
Sócio e Economista Chefe home broker modalmais