A notícia da hora parece ser a Reforma da Previdência. Desde quando tivemos o episódio envolvendo a delação de Joesley Batista, os agentes do mercado parecem querer se acostumar com a ideia de que a Reforma da Previdência pode até não sair ou, na melhor das hipóteses, ser aprovada de forma “desidratada”.

A pergunta que cabe parece ser a seguinte: até que ponto seria importante perseverar nessa reforma com resultado final pífio em termos de ajuste da economia? aparentemente não existe uma resposta que traga alguma tranquilidade.

De certa forma, os investidores já tiraram isso do radar em termos de ajudar na correção de rumo da economia no médio prazo. Porém, não fazer pode gerar traumas nos investidores estrangeiros, peça fundamental para que se possa obter sucesso no programa de concessões, privatizações e investimentos em infraestrutura. Não há de ser com taxa de investimento em relação ao PIB, ao redor de 16%, que conseguiremos tal proeza. Também pode atrasar qualquer movimento na direção do Brasil ir subindo alguns degraus na escalada para retomada do grau de investimento. Pode até ensejar risco de downgrade.

Fazer a Reforma da Previdência ainda que esquálida pode mostrar as boas intenções do governo em retornar ao rumo correto, fato que se associado à recuperação de alguns indicadores da economia (se a situação de curto prazo for mantida), traga a boa vontade de investidores externos e locais. Não podemos esquecer que mesmo com baixíssimo nível de aprovação, o presidente Temer tendo como fiador Henrique Meirelles tem conseguido aprovar medidas fortes, como a do limite de teto dos gastos.

Seguinte a delação de Joesley, tivemos as duas denúncias contra o presidente Temer, o que só fez piorar o ambiente para aprovação de mudanças. Estamos praticamente no mês de outubro, e a segunda denúncia de Temer, incluindo seus principais auxiliares (Moreira Franco e Eliseu Padilha), parece dar mais combustível aos ruídos. Além disso, encurta prazos para discussões e votações de reformas, principalmente a da previdência.

Apesar disso, ainda querendo mostrar otimismo, o ministro Meirelles discursa acreditando ser possível a aprovação de itens da reforma em outubro. Enquanto isso, algumas lideranças políticas já dão como difícil resolver o imbróglio trazido pelas denúncias. Temos que colocar nessa confusão o desgaste dos políticos que estarão envolvidos proximamente com reeleições.

Só para complicar um pouco mais, ainda teríamos eleições majoritárias onde dificilmente os candidatos se comprometeriam enfaticamente com reformas dessa natureza que mesmo bem explicadas para os eleitores não são exatamente alavancadoras de votos. Alguns efetivamente poderão tangenciar reformas (inclusive a da previdência), mas para tanto seria fundamental que a economia estivesse em firme recuperação.

Então, estamos diante de uma encruzilhada, cujo desfecho ainda não é possível assumir com baixa margem de erro. De nossa parte, achamos conveniente que o governo siga perseverando em fazer reformas, ainda que magras, do que deitar sobre os louros da melhora recente da economia; estatisticamente ainda pouco convincentes. Fazer reformas e direciona-las no rumo correto, abriria menor flanco para fugas de capitais que já começam a chegar no Brasil.

Os mercados agradeceriam por atitude dessa natureza, apesar de já não acreditarem tanto em reformas significativas na gestão do presidente Temer.

Uma frase para reflexão: “podeis reconhecer um mau crítico porque ele começa por falar do poeta e não do poema” – Ezra Pound.

Por Alvaro Bandeira
Sócio e Economista Chefe home broker modalmais