O Brasil não é para amadores

Nas últimas semanas, elogiamos a boa integração entre os três poderes, depois dos acenos do presidente Bolsonaro para Rodrigo Maia e Alcolumbre, presidentes das duas casas do Congresso e também para o Judiciário, a partir de encontro com Tofolli.

Foi extremamente oportuno levando-se em consideração que o governo não tem os votos necessários para aprovar a reforma da Previdência; e o empenho do presidente da Câmara em conseguir votos suficientes para chegar numa plenária e obter os 308 votos necessários. A divulgação do relatório da comissão especial da reforma da Previdência transcorreu em clima até positivo, assim como a aprovação da verba suplementar de R$ 248,9 bilhões pedida pelo Governo para não travar pagamentos e não ferir a regra de ouro.

Perguntado sobre o que tinha achado do relatório de Samuel Moreira, o ministro da Economia Paulo Guedes foi brilhante, declarando que “a hora era do Congresso se posicionar, e não ele como ministro”. Porém, bastou um dia para Paulo Guedes quebrar o silêncio e declarar que a economia fiscal não seria de exatos R$ 913 bilhões em dez anos, mas de somente R$ 860 bilhões. Dado o alívio aos servidores públicos. Arrematou que o relator tinha cedido a pressões dos servidores. O mal-estar então fez-se presente com Rodrigo Maia respondendo ao ministro no mesmo tom.

Maia declarou que o ministro tinha aliviado os militares e que o governo estava sendo leniente em tocar a reforma da Previdência, e que se não fosse seu empenho e de Alcolumbre, o governo estaria longe dos cerca de 350 votos necessários para levar a reforma com tranquilidade para votação, ainda nos primeiros dias do segundo semestre.

A fissura voltou a abrir entre o Executivo e Judiciário, teoricamente (não acreditamos) faltando menos de um mês para a pretensa votação. Será preciso ver como essa nova ferida criada pelo governo será sanada. Se houver desdobramentos, o trâmite da reforma pode novamente complicar e dificultar sua aprovação sem grande desidratação.

Não contente, o presidente Bolsonaro protagonizou mais um estresse, ao demitir publicamente o presidente do BNDES Joaquim Levy, dizendo que sua “cabeça estava a prêmio”. Joaquim Levy obviamente pediu demissão do cargo, depois da demissão já ocorrida em seis meses de dois outros e mais de nove presidentes de empresas estatais. Não que Levy fosse importante para a reforma da Previdência e/ou estabilidade do governo, mas a forma como foi feita é que não condiz com a saída de importante auxiliar.

Tudo vai depender de quem será posto no lugar de Levy, e os nomes ventilados até publicar este artigo, são bons. Como Gustavo Franco (ex-presidente do Banco Central) e Salim Matar (ex-controlador da Localiza) e secretário de desestatização. Uma coisa é certa: a substituição terá que ser de alto nível e rápida para que a situação atenue.

O pior é que tudo ocorre numa semana curta e de sexta-feira enforcada (feriado de Corpus Christi) e uma agenda local e internacional muito forte. O período embute o vencimento de opções (17 de junho) e a ida do ministro Sérgio Moro ao Congresso para explicar o vazamento de conversas com representantes do Ministério Público. Embute ainda dados de conjuntura como a expectativa de queda do PIB, agora já abaixo de expansão de 1,0% e com viés ainda negativo. Além de decisão do Bacen sobre juros, onde existem dúvidas sobre qual será a decisão.

Já que falamos sobre o tema, na semana teremos a decisão do FED sobre política monetária, do BoJ (BC Japonês), BOE (BC Inglês) e fórum anual do BCE (BC Europeu); de onde podem surgir mudanças de rota com flexibilização monetária (ou indicação) e queda de juros.

Quando tudo parecia caminhar bem demos uma guinada negativa. É, definitivamente o Brasil não é para amadores. E os investidores seguem estressados.

Por Alvaro Bandeira
Economista-Chefe do banco digital modalmais