O cenário mundial mudou. Essa tem sido a percepção dos investidores sobre a economia global, reforçada por previsões menores de organismos multilaterais e gestores de recursos. Além de bancos centrais. Na semana passada, a OCDE reduziu suas projeções de crescimento global para 3,3%, de anterior em 3,5%; com os EUA expandindo 2,6% e a China com 6,2%. O Brasil não ficou imune com redução estimada para o PIB em 2019 para 1,9%, de anterior em 2,1%.

O BCE (BC Europeu) foi ainda mais drástico com sua visão sobre a zona do euro, projetando agora expansão do PIB de 1,1%, vindo de projeção anterior de +1,7%. O BCE foi além e reestruturou empréstimos de prazo alongado (TLTROs) para instituições financeiras da região poucos meses depois de ter suspendido. E manteve a política monetária estabilizada, com taxa de depósito negativa em 0,40% e taxa de refinanciamento em zero. Acrescentou que a situação deve permanecer até pelo menos o final de 2019, mas a postura permite releitura que pode entrar pelo ano de 2020.

Como se pode notar por essas posturas há grande preocupação coma as incertezas comerciais e alguns países mostram desacelerações acima do previsto. Basta ver os últimos indicadores da Alemanha de atividade industrial ou mesmo a produção industrial de janeiro em queda surpreendente de 0,8%, quando o estimado era expansão de 0,4%. A Itália, por exemplo, entrou em recessão técnica no quarto trimestre de 2018, quando o PIB encolheu 0,1%. Os exemplos multiplicam em todo o mundo.

Nos EUA, o PIB anualizado que vinha rodando com expansão até acima de 3,0%, agora gira na casa de 2,6% (o que ainda é muito bom). Mas as últimas declarações de dirigentes regionais do FED e do próprio presidente citam a economia ainda sólida, mas com alertas sobre as incertezas. Mais que isso, dirigentes do FED mostram preocupação com o endividamento crescente do governo e insustentável perante a expansão do PIB, bem como com o alto nível de endividamento de empresas. Aliás, parece ser um problema geral, principalmente na Europa e alguns países emergentes.

E já que falamos de países emergentes, cabe lembrar dos nossos vizinhos argentinos que na última quinta-feira tiveram que conviver com a maior desvalorização dos últimos meses, com o peso caindo frente o dólar quase 7%. Aliás, já citamos que Macri pode ser um bom exemplo para Bolsonaro do que não se deve fazer. Macri chegou com postura reformista e querendo expurgar o “kirchenerismo”, acabou indo mais devagar nas reformas, com resultados ruins ao ponto de precisar da ajuda do FMI. E agora, apesar de liderar pesquisas de reeleição desse ano, ainda assim está fraco.

No cenário local, o dólar durante a semana, chegou a voltar para cotação de R$ 3,90, com valorização de 2,4%, e investidores apostando um pouco contra a moeda real, por conta principalmente da aversão ao risco global que originou busca de dólares e treasuries (os Bund alemães de dez anos com yield na mínima). Adicionalmente e explicando o comportamento dos investidores, ainda tivemos a percepção de dificuldades e lentidão para aprovação da reforma da Previdência, base de credibilidade para aprovação de outras reformas igualmente necessárias.

Se é realmente o cenário que vingará no plano global, a resposta está com governos e bancos centrais de países desenvolvidos. Nós, emergentes que somos, ficamos na dependência deles, para equacionar balança comercial, déficit fiscal e volume de investimentos, principalmente. Nossa corrida é contra o tempo para aprovação de reformas estruturantes e com a menor desidratação possível.

Porém, existe uma luz no final do túnel na hipótese positiva de conseguirmos fazer as reformas necessárias e em boas condições. Caso isso aconteça, o Brasil será o polo de atração de investimentos nesse quadro global meio nebuloso, voltando ao radar dos grandes investidores. É só esperar que isso aconteça!
Por Alvaro Bandeira
Economista-Chefe do banco digital modalmais