Estamos longe de querer que a sujeira do Brasil seja empurrada para debaixo do tapete. De nossa parte, apesar dos transtornos de curto prazo em todos os segmentos da sociedade, nossa opinião é de que é preciso passar o país à limpo, e no médio e longo prazo os benefícios apareceram. Um país melhor, com menos corrupção, com os três poderes trabalhando e mais previsível; e uma sociedade mais honesta e cordial. Precisamos passar por tudo para depurar todo o sistema.

Mais apesar disso, somos forçados a constatar que a cada momento temos uma nova denúncia de malversação de recursos, de corrupção, de assédio sexual, etc. Colocando expostas as entranhas de nossos dirigentes, formadores de opinião e até lideranças espirituais, como o conhecido João de Deus.

Não é para sair crucificando todos, antes que as acusações sejam apuradas. Mas convenhamos que em muitos casos as evidências são enormes. Alguém tem dúvida da conduta de alguns dos ex-presidentes do país? alguém em sã consciência pode absolver a maioria dos políticos relatos em corrupção? Achamos que não. Mas é preciso apurar fatos e se houver culpabilidade, punir adequadamente. Chato que as leis brasileiras não são duras o suficiente, ao ponto de inibir os delitos.

Agora mesmo temos o recém presidente eleito envolvido em denúncias que merecem serem apuradas. Denúncias culpando filho e esposa, por receberem recursos de funcionários a eles ligados e que trabalharam em seus gabinetes. A leitura que se permite é de que parte dos empregados devolvia um quinhão de suas remunerações, coisa bastante comum em gabinetes de outros parlamentares. Precisa ser apurado e explicado.

Porém, em tese, isso acaba sendo terrível para um candidato “imaculado”, na visão de muitos que votaram nele. Pode ser uma tentativa articulada de “queimar o filme” de Bolsonaro que pretende mudar o jeito de se fazer política nesse país, quebrando paradigmas incrustados no segmento político por décadas seguidas. Mas, também, é importante acabar com o denuncismo que faz tornar pessoas íntegras em bandidos e ladrões, do dia para a noite.

Se do lado interno, nada ajuda, do lado externo a situação parece ainda mais complicada. O Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia) só faz complicar. Agora mesmo Theresa May retirou a votação do projeto que aconteceria amanhã, por identificar que seria derrotado por margem significativa. May diz ser esse o acordo possível, enquanto a Comissão Europeia diz que não volta a negociar e que esse é o pacto possível. A oposição britânica pressiona por um novo plebiscito e ameaça moção de censura para a primeira ministra May.

Há outros problemas que já mencionamos, mas por trás de tudo está a preocupação de desaceleração econômica global e possível recessão americana para o final de 2019, início de 2020. De positivo, poderíamos extrair somente a alternativa de bancos centrais demorarem mais em ajustar suas políticas econômicas, e de serem mais comedidos na elevação dos juros. Mas, certamente, não seria exatamente por um bom motivo. As economias emergentes tenderiam a sofrer mais, já que são exportadoras de produtos primários e intermediários e estão no início da cadeia produtiva.

Em função disso, os mercados de risco estão sofrendo forte pressão vendedora e os emergentes sofrem ainda mais com a elevação da aversão ao risco. No caso do Brasil, por ter boa liquidez secundária, a pressão é ainda maior por conta de fazer caixa de forma mais rápida.

Por enquanto, vamos seguir assistindo forte volatilidade nos mercados e desequilíbrios no câmbio e na taxa de juros. Enquanto isso, o índice VIX (do pânico) só faz subir e atinge 26 pontos.
Por Alvaro Bandeira
Sócio e Economista Chefe home broker modalmais