POSSÍVEL E IMPOSSÍVEL
Alvaro Bandeira é economista-chefe e sócio do banco digital modalmais

Esse pode até ser um testemunho pessoal de alguém que tem quase meio século de trabalho ininterrupto em mercado de capitais, e que por via de consequência passou por várias crises globais ou não, mas que sempre acabam afetando os países emergentes de forma mais forte. O Brasil emergente ainda tende a sofrer um pouco mais por ter um mercado de capitais mais desenvolvido (não devemos nada aos de países ricos em termos de estrutura) que outros e liquidez funcionando nos diferentes segmentos.

Assim, sempre que temos uma crise de maior dimensão, a válvula de saída rápida de emergentes acaba sempre sendo por aqui. Depois os gestores de recursos, com mais calma, voltam a reequilibrar suas posições de carteiras redistribuindo os recursos dentro da conveniência de suas aplicações de momento.
Se segmentarmos em América Latina, o entendimento disso fica bem mais claro.

Pois bem, assisti e vivi todos os circuit breakers do mercado brasileiro desde sua adoção por aqui em 1997, por ocasião da crise da Ásia. Antes disso era a selva! Nessa crise da Ásia, os mercados tiveram três paradas. Logo em seguida sobreveio a crise da Rússia com cinco paradas do mercado por aqui. Para nossa tristeza, já em 1999 (portanto três anos em sequência), mais duas paralisações por conta da desvalorização do real. Notem que na crise do México, no início do primeiro governo FHC (1994/95) não tínhamos o circuit breaker implantado. Ah! E quase ia esquecendo de mais um circuit breaker ocorrido em 2017, conhecido como Joesley Day, quando foi divulgada gravação prometendo ao então presidente Michel Temer, com a frase memorável “tem que manter isso, viu”.

A partir daí tivemos breve pausa nisso e só voltamos a ter paralisações da Bovespa em 2008 (setembro), quando da crise global deflagrada pelas operações de subprime com origem nos EUA e que redundaram na quebra de várias instituições financeiras centenárias, com a quebra do Lehman Brothers e a quase quebra de outros com a seguradora AIG e GM; enquanto outros bancos foram sendo adquiridos em operações simbólicas por instituições como BofA (Bank of América) ou Wells Fargo. Sumiram muitas instituições financeiras de larga importância no mundo.

Discorri sobre tudo isso para colocar no contexto a crise atual, onde até agora seis circuit breakers já foram acionados, não só no Brasil como também nos EUA, fazendo com que a Bovespa encolhesse em 2020 (até 23/3) 45,05%, e com brutal deterioração do valor de mercado dos ativos.

Na crise global de 2008 tivemos como destaque a ação coordenada dos principais bancos centrais do mundo, reduzindo simultaneamente em um dia suas taxas de juros básicas em 0,50%, depois cada um tomando medidas cabíveis para suas economias, até chegarmos no “cheque em branco” do FED para acalmar os mercados, tanto lá quanto no resto do mundo. É bom lembrar que nessas horas o dólar fica escasso no mundo e é necessário fazer, como agora, acordos de swap cambial com outros bancos centrais do planeta.

Vivi todas essas crises relacionadas ao mercado financeiro e economia, mas nunca tinha vivido uma crise de saúde global, com reflexos ainda mais dramáticos sobre as economias, e também o sistema financeiro. Portanto, sem qualquer medo de estar enganado, muito embora não tenha havido uma coordenação de políticas iniciais pelos diferentes bancos centrais, ainda assim essa é a maior mobilização por parte de bancos centrais e governos que já vi.

Notem que a situação de juros é inteiramente diversa daquela de 2008, quando havia muito espaço para uso de política monetária (agora não há tanto) e também não existe muita folga dos países para políticas fiscais mais agressivas. Quem tem folga já está usando, e quem não tem vai ter que criar e emitir moeda. Portanto, mais para frente quando tudo acalmar terão que ajustar suas economias com reformas estruturantes.
Esse é o caso também do Brasil, que terá o desafio de fazer esforço de guerra, esquecer e atrasar reforma por um tempo; mas depois inevitavelmente terá que retomar políticas de maior austeridade. Só esperamos que nossos governantes tenham maturidade para enxergar isso.

O mundo e o Brasil vão sobreviver a tudo isso e os mercados vão voltar para situação normal. O que precisamos é de sangue-frio para avaliar a situação e calma para programar nossas operações de forma racional e não emocional.

Meninos e meninas, eu já vi e vivi tudo isso!

Alvaro Bandeira