No primeiro quadrimestre do ano, a Bovespa registrou valorização de 24,4% e, no mês de abril, isoladamente tivemos alta de 7,7%. Destacamos que em 2016 ações como Vale e Petrobras tiveram valorização superiores a 52%. De outra feita, nesse ano os investidores estrangeiros já alocaram liquidamente quase R$ 14 bilhões, o que é certamente muito positivo.

Aos mais leigos, tal performance pode parecer algo incoerente, mas existem justificativas para tal que vamos tentar demonstrar. Antes de tudo, precisamos ter presente que a perda de valor das ações nos últimos anos foi enorme, em especial as duas empresas citadas. Petrobras, por tudo que corre no noticiário local sobre corrupção, Lava Jato, endividamento excessivo e queda do preço do petróleo no mercado internacional; dentre outras. No caso de Vale, também tivemos forte queda dos preços internacionais, problemas com a controlada Samarco e alavancagem acima do previsto, além do forte prejuízo apresentado.

Ocorre que os preços internacionais do petróleo e do minério de ferro no mercado internacional melhoraram nos últimos meses, como decorrência da percepção que as medidas adotadas na China começam a surtir efeito e que o país não terá pouso forçado, como crescimento do PIB maior ou igual à meta de 6,5% estabelecida. Também estão sendo adiados os aumentos de juros previstos para os EUA, ao mês tempo em que por conta da fraca recuperação em muitas economias, vários países ainda estão na ponta inversa de flexibilizar políticas monetárias. Isso pode ser constado com a postura do BCE (BC Europeu) , BOJ (BC Japonês), PBOC (BC da China), ou mesmo de outros como o Russo, Húngaro ou Coreano.

Especificamente sobre o Brasil, além desses fatores relatados que serviram para derrubar e depois puxar essas ações, ainda tivemos mudanças na cena política, já que a cena econômica seguiu consistentemente fragilizada; para dizer o mínimo. Os mercados de risco do Brasil só tiveram melhora mais consistente a partir do momento em que o impeachment da presidente Dilma foi ficando cada vez mais claro. Foi fácil detectar que sempre que o impeachment ficava mais forte, a Bovespa era beneficiada, o câmbio cedia e os juros também. Sempre que havia algum risco da presidente Dilma não ser impedida, os mercados reagiam de forma inversa.

Pois bem, exceto por alguns sustos de curto prazo, os dois últimos meses foram na direção do impeachment, o que ajudou na retomada do mercado secundário de ações no cenário local, na melhora de diversas empresas anteriormente penalizadas e taxa cambial em queda. Todos esses fatores explicam também o fato do Brasil apresentar melhor desempenho comparativo com outros mercados no quadrimestre, notadamente o mercado americano.

Mas calma, como temos alertado em nossos comentários diários e em artigos, a situação econômica brasileira é extremamente complexa e vai exigir boa dose de agressividade por parte do governo na abordagem dos problemas e soluções, explicações claras do momento vivido e atitudes adotadas; além de boa dose de sacrifício da sociedade. Com isso, parte da credibilidade pode retornar e investidores mudarem a postura com relação ao país e investimentos em infraestrutura.

O ruim de tudo isso é que a situação geral dos indicadores tende a piorar mais e investidores e empreendedores não retornam ao país do dia para a noite. O positivo é que a manutenção da liquidez global pode acabar dirigindo parte dos recursos para o Brasil mais crível (ainda que para absorver juros reais elevados) , movimentando a “roda” econômica no sentido correto.

Essa parece ser a vertente explorada pelos investidores que justificam a alta recente dos ativos num cenário degradado. Na nossa visão, parte do impedimento da presidente já estaria ajustado no mercado, mas dependendo dos atos do novo governo, haveria espaço para altas mais conscientes.