O Brasil de Michel Temer tem uma única saída para colocar o país nos trilhos novamente. Reduzir o déficit fiscal e interromper o crescimento da dívida pública. Para tanto, não existem saídas fáceis para ajuste. O ruim, no entanto, é o governo Temer carregar a peja de governo provisório, com cara de que o processo de impeachment pode ser alongado além do prazo do início do mês de agosto.

O presidente do STF, Ricardo Lewandowski, acatou pedido da defesa da presidente afastada Dilma para realizar perícia no processo de impeachment, o que pode acarretar em maior prazo para julgamento. Na comissão de impeachment, os parlamentares se esforçam para encurtar prazos, mas a situação é complicada pelo “sem número” de interrupções dos defensores de Dilma e número enorme de testemunhas para serem ouvidas.

Lembramos isso, pois não parece muito lógico que o presidente em exercício queira colocar para discussão projetos polêmicos, sem ter consolidada a posição de presidente que completará o mandato até 2018. Embora isso seja plausível, ainda assim, sua equipe de governo já deveria estar trabalhando com afinco nas soluções que de fato podem mudar o país, preparando a situação para complementação do presidente eleito em 2018.

Com isso, ainda que os projetos possam ser adiados por um bom par de meses, o presidente Temer e sua equipe já deveriam ter mostrado para a sociedade uma agenda ambiciosa de ajuste. Já deveriam estar trabalhando com vigor numa agenda de venda de ativos de propriedade da União, e certamente no processo de privatização e concessões. A sociedade já deveria estar sendo informada sobre o andamento disso de forma mais clara, considerando até privatizações emblemáticas, destinadas a não deixar dúvidas sobre as reais intenções do novo governo. Nessa vertente, seria bom explicar as novas TIRs (Taxa Interna de Retorno) capazes de sensibilizar investidores.

Outra vertente igualmente importante seria a tacar a rigidez dos gastos públicos e quebrar dogmas. O orçamento é completamente engessado e não será com cortes tímidos que o governo conseguirá domar o déficit em prazo razoável e tornar a curva de endividamento negativa. Parece muito difícil que os investidores externos (por mais que gostem do Brasil) comecem a alocar recursos internamente sem demonstrações inequívocas de que os próximos governos agirão na direção correta.

Quando falamos em concessões e outros investimentos de grande vulto, estamos falando também de prazos longos para retorno, onde marcos regulatórios estáveis são requeridos, mas também certa estabilidade dos indicadores macroeconômicos. Não há como tergiversar sobre isso.

Por fim, é preciso encarar o problema da Previdência. Na semana que passou, o presidente Temer manteve encontro com sindicalistas para discutir o tema, mas nada de concreto parece ter saído. É preciso cortar a escalada do déficit da Previdência, ainda que de forma fatiada, aos poucos, mas de forma contundente. Qualquer ajuste do déficit brasileiro tem que passar pela Previdência, por mais doloroso que isso possa ser para a classe trabalhadora. Não há solução sem mudança no modelo. Não há de ser com arrecadações de liberações de jogos de azar (não por isso), ou com venda de ativos para cobrir provisoriamente rombos que se farão presente no futuro.

Se alguma crítica resta para o primeiro mês do governo Temer, é exatamente essa. Precisamos de mais ações e menos discursos.