Mais uma semana de grande volatilidade do mercado local e também internacional, contemplando ainda bruscas mudanças de tendência intraday. Dois eventos maiores viraram foco dos investidores: no âmbito externo a eleição de meio de mandato para renovar 100% da Câmara americana e 1/3 do Senado. No ambiente interno o lado político despontou com o périplo do presidente eleito Jair Bolsonaro e sua comitiva de assessores e futuros ministros.
Os investidores reagiram a tudo isso. No cenário externo dólar e juros oscilando forte e mexendo com a precificação dos ativos. Do lado interno, a percepção de que existem muitos e simultâneos problemas para serem resolvidos pelo próximo governo que tem tergiversado sobre prioridades e detalhes de agenda.
As eleições americanas ocorridas em 06/11 tiveram resultado absolutamente dentro do esperado. Donald Trump manteve a maioria das cadeiras no Senado e perdeu a maioria na Câmara. Com isso os poderes ficam mais equilibrados e deve frear um pouco as ações tempestivas do presidente Trump, principalmente no que tange às negociações comerciais com a China, novas reduções fiscais e implementação de tarifas. O dado positivo é que o FED pode alongar a normalização da política monetária e suavizar elevações da taxa de juros.
Ainda no cenário internacional dois fatos acessórios, mas nem por isso menos importantes, também trouxeram efeitos capturados pelos mercados de risco. O tempo para o Brexit vai encurtando, e ainda não se tem acordos. Ora a imprensa internacional noticia que o acordo é eminente, ora vem algum dirigente da União Europeia dizer que não existe nenhum acordo para ser fechado. Theresa May, fala que acordo está próximo, para em seguida dizer que pretende solicitar extensão de prazo. No meio do caminho tivemos demissão de ministro por discordar e pedido para um novo plebiscito.
Já com a Itália a situação é de pressão total sobre o orçamento de 2019, com a Comissão Europeia pedindo explicações e reformulações do orçamento, e lideranças da Itália dizendo que não mexerão. Há grande preocupação das contas por lá se complicarem com déficit elevado e endividamento ainda maior que os 130% do PIB, deixando um “pacote bomba” do sistema financeiro italiano no colo do BCE, com possibilidades de consequências.
Permeando tudo isso a perspectiva de desaceleração do crescimento das principais economias em 2019 e anos seguintes, e a tentativa dos países desenvolvidos de normalizarem suas políticas econômicas, o que dificulta a situação dos países emergentes. Além disso, o protecionismo comercial inaugurado com a tarifação americana. O BOJ (BC japonês) reduziu suas expectativas de crescimento para a economia em 2019, enquanto a China luta para manter o crescimento em 2018 e 2019. Durante o feriado no Brasil, os EUA anunciaram a taxa de desemprego em 3,7%.
Em termos de indicadores de conjuntura tivemos anúncio de índices PMI da atividade de serviços para diferentes países. Na China o PMI caixin composto caiu para 50,5 pontos, no limiar entre expansão e contração da atividade. No Japão houve expansão do PMI de serviços para outubro para 52,4 pontos e no Reino Unido encolheu para 52,2 pontos. Na Alemanha o PMI de serviços caiu para 54,7 pontos e na zona do euro cedeu para 53,7 pontos.
Ainda na zona do euro a inflação medida pelos preços no atacado (PPI) subiu 0,5% em setembro com a taxa anualizada em 4,5%. Na Alemanha surpreendeu positivamente as encomendas à indústria de setembro em expansão de 0,3%, quando o esperado era encolhimento de 0,6%. Lá, o superávit da balança comercial de setembro foi de 17,6 bilhões de euros. Também com superávit comercial forte veio a China em outubro, com +US$ 34,0 bilhões. Contra os EUA o superávit encolheu para US$ 31,8 bilhões. Lá as reservas internacionais também encolheram em outubro, mas se mantêm acima de US$ 3,0 trilhões.
Nos EUA o índice PMI de serviços de outubro subiu para 54,8 pontos, mas o ISM de serviços de Chicago encolheu para 60,3 pontos. Donald Trump decidiu manter a maior pressão possível sobre o Irã, mas aliviou alguns países da sanção imposta para compra de petróleo, dentre Eles Coreia do Sul e Japão. O FED decidiu manter juros estabilizados entre 2,00% e 2,25%, e no comunicado ficou explicito o bom momento da economia, o que permitiu a leitura que teremos alta de juros em dezembro. Os mercados reagiram também a isso. A confiança do consumidor de Michigan em novembro caiu para 98,3 pontos.
No cenário local o foco esteve sempre na visita de Bolsonaro e comitiva durante o meio de semana a Brasília, com direito a entrevista coletiva de Moro, e Paulo Guedes querendo uma “prensa” para o Congresso aprovar medidas, especialmente a reforma da Previdência. A equipe de transição começou a trabalhar e manteve encontros para falar de Previdência. Tereza Cristina, líder da bancada ruralista, foi convidada para ministra da agricultura e o General Heleno deslocado para o gabinete de segurança institucional. A diplomação de Bolsonaro foi marcada para 10/12. Bolsonaro teve encontro com o presidente Temer que pediu para ele listar prioridades, para tentarem votar ainda em 2018.
Na economia a pesquisa Focus veio tranquila e com poucas mudanças, a ata da última reunião do Copom não trouxe novidades em relação ao comunicado da semana anterior e a inflação oficial pelo IPCA veio comportada, com alta menor que a prevista em 0,45%, e mostrando inflação em 2018 de 3,81% e em 12 meses de 4,56%. A safra de balanços do terceiro trimestre seguiu mostrando resultados no geral melhores inclusive Petrobras com lucro de R$ 6,6 bilhões, retorno dos investimentos de R$ 15 bilhões, desalavancagem e distribuição de recursos para acionistas.
Apesar de tudo, os investidores estiveram sempre nervosos com a agenda e prioridades do novo governo e os estrangeiros seguiram sacando recursos da Bovespa. Até a sessão de 07/11 os estrangeiros tinham sacado R$ 1,04 bilhão e o ano estava negativo em R$ 6,95 bilhões.
RESUMO DA SEMANA
IBOVESPA -3,15% (85641) DOW JONES* +2,76% NASDAQ* +0,53% DÓLAR R$ 3,74 (+1,03%)
*Faltando uma hora para encerramento
PERSPECTIVAS
Os últimos dias e a viagem do presidente eleito para Brasília evidenciaram quão tênue é a mudança de humor dos investidores, tanto no segmento local como no internacional. Basta ver o que está acontecendo no mercado internacional com o preço do barril de petróleo que beirou os US$ 80,00 e agora perdeu o patamar de US$ 60,00.
O mesmo podemos intuir para o comportamento da Bovespa nos últimos dias, quando depois de quase chegar aos 90000 pontos, perdeu mais de 4000 pontos em quatro pregões. Igualmente inferimos pelo comportamento dos investidores estrangeiros que em quatro sessões da Bovespa sacaram R$ 1,0 bilhão, e no ano soma saída líquida de R$ 6,95 bilhões. Como bem lembramos anteriormente, a alta foi feita pelos investidores locais, e seria preciso observar o retorno dos estrangeiros.
No segmento local os últimos dias foram de preocupação dos investidores com as declarações de representantes do novo governo, as prioridades mal desenvolvidas, a agenda positiva, confusão e declarações desencontradas, assim como anúncios de fusão de ministérios e demora em anunciar nomes para compor ministérios e segundo escalão, bem como completar a equipe de transição que abordará os 10 segmentos designados.
No cenário externo outras tantas preocupações. Brexit com prazo correndo e sem acordo, Itália em situação precária e pressionada pela Comissão Europeia, países emergentes desequilibrados e países desenvolvidos tentando normalizar suas políticas monetárias. Não podemos esquecer Donald Trump e problemas com seus assessores e a interferência russa, sanções espalhadas para todos os lados, com destaque para o Irã.
Pois bem, passada as eleições de meio de mandato e já conhecedor dos resultados é possível prever que Donald Trump dome sua agressividade e seja um negociador mais suave na área comercial e especialmente com a China. Também podemos esperar que o FED possa agir de forma mais comedida e reduzir a velocidade de elevação da taxa de juros e contração da liquidez. Os mercados vão acabar ajustando para isso.
Pela análise técnica seria oportuno não perder o patamar dos 85600 pontos, quando o mercado poderia buscar maior desaceleração até a proximidade de 83500 pontos. Bom mesmo seria retornar e superar a marca de 90000 pontos para buscar objetivos ainda maiores para encerramento do ano. Mas para que isso aconteça será fundamental a volta do fluxo de recursos estrangeiros e maior assertiva da equipe econômica e novo presidente.