RESUMO DA SEMANA

Parece algo inócuo fazer um resumo do comportamento da semana no plano econômico e político, já que o fator determinante foi sempre a expansão do coronavírus pelo mundo e as reações de bancos centrais e países para tentar minimizar impactos e domar a pandemia que se alastra pelo mundo. Indicadores de conjuntura anunciados no período não tiveram nenhuma influência no comportamento dos mercados espalhados pelo mundo e também por aqui. Tudo girou no entorno do coronavírus.
Apesar de não termos tido uma reação coordenada de países e bancos centrais como ocorreu na crise do subprime de 2008, ainda assim todas as decisões foram no sentido de reduzir os efeitos do vírus nas economias e dar suporte para pequenas e médias empresas. Também foi possível detectar preocupação com o sistema financeiro, principalmente em propiciar liquidez.
Nesse sentido, países e bancos centrais passaram a anunciar medidas bastante importantes. A China reduziu o compulsório em 0,5% liberando recursos da ordem de US$ 79 bilhões para o sistema, o FED ampliou bastante as operações de recompras de títulos, Reino Unido foi na mesma direção e o Japão anunciou recompra de 500 bilhões de ienes em JGBs, mas não reduziu ainda mais os juros já negativos em 0,10%. Comportamento similar teve o BCE (BC europeu) mantendo juros negativos em 0,50%, mas ampliando recompras.
O governo de Trump anunciou injeção de recursos de US$ 1,5 trilhão, ampliou operações de overnight de duas semanas e ainda deve anunciar outras medidas encaminhadas para aprovação no Congresso, envolvendo reduções de impostos, inclusive na folha de pagamento de empresas.
Falando dos mercados em total desequilíbrio durante a semana, a Coreia do Sul proibiu vendas descobertas em seus mercados. Aqui a B3 mexeu em limites de oscilação para garantir zeragem de investidores pressionados por prejuízos e chamadas de margem e empresas passaram a anunciar programas de recompras para suas ações, e isso deve crescer nos próximos dias.
No mundo inteiro, a preocupação está mais focada na sobrevivência de empresas de pequeno e médio porte e a necessidade de se ter linhas de financiamento rápido, principalmente para empresas diretamente afetadas pelo coronavírus do segmento de serviços. Empresas aéreas, de turismo e hotéis são os mais prejudicados.
Dissemos que não foi uma ação coordenada, mas o resultado final acaba sendo semelhante já que todos estão fazendo mudanças. Além disso, Donald Trump e líderes do G-7 coordenam esforços para vacinas e resposta financeira ainda mais contundente. Os organismos multilaterais também se movimentam e começam a fornecer linha de crédito para países e empresas.
Aqui, com certeza saímos tarde para tentar minimizar impacto econômico, mas antes tarde do que nunca. Os bancos públicos estão imbuídos para financiar empresas e setores, com destaque para o segmento de serviços, o governo estuda permitir atrasos de pagamentos por Estados (se já tivéssemos o Pacto Federativo seria mais fácil) com receitas decrescentes principalmente oriundas do petróleo e liberar recursos.
A equipe econômica estuda antecipar a primeira parcela do 13º salário de aposentados do INSS para abril e uso dos recursos do PIS/Pasep que não foram sacados. O Ministério da Saúde recebeu verba suplementar de R$ 5 bilhões para o combate ao coronavírus e é voz corrente entre os técnicos do governo, economistas e sociedade que, em se tratando da crise, o teto de gasto não deveria ser observado e também poderia se mudar e projeção de déficit primário. Com isso, o governo deixaria de ter que contingenciar cerca de R$ 37 bilhões. Isso sem contar com a extemporaneidade de derrubado do veto de restrições ao BPC (benefício de prestação continuada), que agregaria cerca de R$ 20 bilhões de despesas, o que não faz o menor sentido diante da situação imposta.
Com isso, queremos dizer que os gastos deveriam ser realizados com total parcimônia para domar a crise e garantir a funcionalidade da economia. No Brasil, isso é muito complicado de ser feito, mas não é impossível.
Ficou faltando comentar sobre a outra vertente dessa tempestade perfeita que abalou os mercados, representada pela guerra de preços que envolveu a Arábia Saudita e a Rússia em hora totalmente inapropriada. Isso só agravou o comportamento dos mercados de commodities, câmbio e juros; piorando ainda mais a precificação dos ativos pelo mundo.
No mercado de capitais local, destacamos que o valor de mercado das companhias listadas na Bovespa desde o dia 26/02 já encolheu R$ 1,32 trilhão em valor de mercado, provocou fortes perdas aos investidores, muitos deles conquistas novos egressos da renda fixa, provocou a suspensão de IPOs e follow on e reduziu bastante a sensação de riqueza, que em um segundo momento inibe o consumo e a produção. Com isso e dado que não temos folga fiscal par estimular a economia, as projeções de crescimento para o ano tendem para crescimento do PIB de 1,5%, mas já há quem projete +0,9%.

Na Bovespa, os investidores estrangeiros seguiram sacando recursos, e até 11/03, já tinha saído R$ 12,5 bilhões, acumulando no ano saídas líquidas de 52,6 bilhões, já bem mais que a saída de todo o ano de 2019 de R$ 44,5 bilhões. Por fim, terminamos a semana com o acionamento de quatro Circuit Breakers e quase que o pregão de 12/03 teve quer ser suspenso com a terceira interrupção em um só dia.

Indicadores da semana

Bovespa -15,68% (82.631)
Dow Jones -10,36%
Nasdaq -8,17%
Dólar R$ 4,816 (*)

(*) chegou a bater R$ 4,88 depois de Trump anunciar compra de petróleo para estoque.

Perspectiva
Vamos ter que evocar o filósofo Sócrates que dizia que só sei, que nada sei.
Aparentemente, os mercados têm bom espaço para recuperações e o mercado acionário local que não achávamos caro ficou ainda mais barato, cerca de 30% para muitas ações de boas empresas, ou ainda algo acima de 40% quando estimada em dólar.
Se o impacto do coronavírus for curto como parece, ou mesmo como estimam os cientistas e pesquisadores, haverá espaço para recuperação ao longo do segundo semestre desse ano e as empresas podem manter resultados semelhantes aos estimados. Agora mesmo tivemos a notícia de reabertura de todas as lojas da Apple na China, o que fez suas ações subirem mais forte que o índice. Porém, se alastrar por países com saúde pública precária, pode atrapalhar o desempenho do segundo semestre. Trump no final do dia decretou emergência nacional, o que permite dispor rapidamente de US$ 50 bilhões.
Para variar, aqui é só mais um pouco complicado de estimar, já que o país teve fuga de recursos forte no final do ano, não tanto efeito do coronavírus, mas sobretudo pelo retardo em fazer as reformas e ajustes da economia, Pode ser que em função do vírus os três poderes se mobilizem para levar adiante os ajustes, mesmo considerando que variáveis como teto de gastos e déficit primário podem ficar comprometidas.
Do ponto de vista da análise técnica, seria positivo não perder o patamar de 70.000 pontos e tentar aproximação de faixa acima de 90.000 pontos.

Alvaro Bandeira