Por Alvaro Bandeira
Sócio e Economista Chefe home broker modalmais

Na semana passada, a Bovespa bateu sucessivos recordes históricos de pontuação de seu índice, encerrando em alta de 1,98%, aos 93.658 pontos e acumulando no ano de 2019 valorização de 6,6%, com algumas ações valorizando mais de dois dígitos no período. Isso atraiu algumas realizações de curto prazo, bem e mal absorvidas por recursos entrantes.

A semana que está começando contém alguns fatores que podem determinar o comportamento dos mercados de risco no Brasil e no exterior. No exterior, dois fatores se destacam dentre outros: a 1) votação do acordo do Brexit pelo parlamento britânico e 2) a paralisação de alguns departamentos do governo americano.

No que tange ao Brexit, a situação aparece bastante complicada. Há a perspectiva de o acordo selado por Theresa May e a União Europeia ser rejeitado, enfraquecendo ainda mais a primeira ministra do Reino Unido e eventual convocação de eleições gerais. Pode ser alongado o prazo de saída marcado para 29 de março e volta das discussões, ou ainda marcar a saída do Reino Unido da União Europeia sem qualquer acordo, o que seria catastrófico, pois inviabilizaria acordos comerciais históricos.

Nossa opinião (e é mera opinião) é que o período de saída possa ser alongado, abrindo até espaço para novo plebiscito. Theresa May insiste que o parlamento britânico tem o dever de entregar o Brexit, no que está absolutamente correta. Afinal, esse foi o seu mandato no cargo de primeira ministra, mesmo sendo contra o Brexit. Achamos que não haverá nada de drástico, e até com a Irlanda e suas fronteiras vai haver alguma resolução.

O mesmo deve ocorrer com a paralisação do governo americano. Impossível extrapolar que a situação vá durar por muito tempo. Trump deve conseguir compor com os Democratas, e evitar que a mais longa paralisação americana tenha curso. Não dá para acreditar que US$ 5,6 bilhões impeçam o país de funcionar plenamente. Trump pode ainda declarar Emergência Nacional e usar recursos de catástrofe para terminar o muro. De qualquer forma, com a maioria democrata na Câmara, os dois anos finais de Trump ficaram bem mais duros, nos moldes do que ocorreu com Barack Obama no final de seu mandato.

Apesar de esses serem os problemas mais emergentes no curto prazo, por traz de tudo está a expectativa de desaceleração econômica global. A China mete medo em todo o mundo, mas tem adotado postura francamente proativa para seguir crescendo forte, o que significa PIB na faixa de +6,5%. Outra consideração é que a economia americana poderia entrar em recessão pelo final de 2019/2020, e o mesmo poderia acontecer com a Alemanha. Para isso, mantemos postura otimista de que não se andou até o momento, em termos de flexibilização monetária e expansão de balanços de bancos centrais, para depois jogar tudo pela janela. O melhor exemplo é que a posturas de dirigentes do FED e do BCE estão bem mais suaves que em meses anteriores, auscultando o que o mercado está projetando.

Claro que há problemas na Itália e em muitos emergentes que estão desajustados, e cujos países e empresas estão muito endividados, e num ambiente que poderia ser mais hostil em termos de liquidez internacional e elevação de taxas de juros. Um alongamento das expectativas de ajustes nas políticas monetárias de países desenvolvidos daria mais fôlego e possibilidade de ajustamento dos países. Nisso podemos incluir o Brasil e seu enorme desafio fiscal imposto à equipe econômica.

Na nossa visão, o maior risco está no plano interno, onde Bolsonaro e sua equipe desfrutam de pouco tempo para mostrar que podem colocar a “casa” em ordem, via inicialmente de reformas infraconstitucional e depois obter apoio necessário do Congresso para reformas constitucionais. Como identificamos que o problema brasileiro é mais político que econômico (de conseguir apoio parlamentar para reformas duras), será preciso compor com parlamentares que andam meio insatisfeitos com a nova política, e querem a volta do “toma lá, dá cá”.

Será preciso o concurso novamente dos investidores estrangeiros que em 2018 retiraram liquidamente R$ 11 bilhões (na verdade R$ 22 bilhões, já que ficamos positivos em mais de R$ 10 bilhões) e ainda não voltaram com força. Claramente esperam sinalizações do novo governo e termos de ajustes na economia. Se essas sinalizações forem positivas, haverá muito espaço para os mercados de risco evoluírem em 2019.