Por Alvaro Bandeira
Economista-Chefe do banco digital modalmais

O mês de setembro (assim como outros) se revela complicado para estimar tendência dos mercados. Os investidores têm que avaliar muitos fatores para atuarem no curto prazo. O período que está começando não é diferente e com agravantes no radar. A diferença da semana foi o ataque do Iêmen às instalações da Aramco na Arábia Saudita, que segundo o noticiário internacional, representa cerca de 5% da produção bruta de petróleo e algo com 50% do total.

O noticiário internacional vem tentando minimizar os efeitos sobre a formação de preço do petróleo no mercado internacional. Logo pela manhã do dia 16 de setembro, quando escrevo este artigo, tanto o petróleo tipo brent, quanto o WTI negociado em NY mostravam altas de mais de 10%. Movimento depois de a OPEP ter divulgado que a Arábia Saudita possuía estoques elevados que suportariam parte da oferta de óleo. Depois também de Trump anunciar que disponibilizaria parte das reservas estratégicas americanas e membros da OPEP (incluindo a Rússia) garantiriam a manutenção da oferta.

Acrescentamos que o mercado estava desequilibrado, com relatórios da OPEP e Agência Internacional de Energia (AIE) indicando redução de demanda por petróleo e derivados, muito em decorrência da desaceleração econômica global. Destacamos ainda que no mês de agosto, a própria Arábia Saudita tinha ampliado sua produção, apesar dos cortes dos membros da OPEP ficarem em 136% da meta, ou seja, maiores que o previsto.

Apesar da aparente tranquilidade em relação ao ataque que os EUA insistem em afirmar que partiu do Irã, o Iêmen diz que pode fazer novas escaramuças contra a Arábia Saudita. As relações EUA x Irã podem azedar de vez, o que vai ampliar as tensões no Oriente Médio. Tanto é verdade que o Kuwait está adotando medidas adicionais de segurança, temendo ataques. Ou seja, ainda vamos ter mais volatilidade em commodities no curto prazo. Caso essa situação se prolongue, teremos efeitos de médio prazo no câmbio, na inflação global (caso petróleo e derivados sigam em alta) e, por via de consequência, pode afetar as políticas monetárias dos diferentes países.

A semana embute a decisão sobre política monetária por parte de importantes bancos centrais do mundo: 1) FED americano 2) nosso Copom 3) BoJ (Banco Central Japonês) 4) BOE (Banco Central Inglês). Esse último avalia todas as complicações do Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia. Nesse aspecto, o primeiro ministro Boris Johnson tem encontro marcado para hoje (16 de setembro) com o presidente da União Europeia, Jean Claude Juncker. Ao que tudo indica não pedirá e não aceitará extensão do prazo para o Brexit, que teoricamente expira em 31 de outubro. Complicação adicional pelo fato de Boris Johnson, no pouco tempo de primeiro ministro, ter sido derrotado em quatro oportunidades. Não descartamos a possibilidade de um voto de desconfiança.

Em sintonia com a desaceleração econômica global, os números de conjuntura mostrados pela China para agosto anualizadas frustraram as previsões dos analistas. Produção industrial crescendo somente 4,4% (previsão era 5,2%), vendas no varejo com +7,5% (previsão de +7,9%) e investimentos em ativos fixos urbanos com alta nos oitos primeiros meses de 2019 de 5,5% (previsão de 5,7%). Além disso, o primeiro ministro, Li Keqiang, acha difícil manter taxa de crescimento do PIB acima de 6,0%, o que vai mudar um pouco as expectativas. Apesar disso, a leitura foi que devem produzir novos estímulos na economia, via investimentos em infraestrutura e alta tecnologia, considerando flexibilidade no sistema financeiro para instituições estrangeiras.

No Brasil, aguardamos a primeira votação do Senado marcada para 24 de setembro. A segunda votação está prevista para 10 de outubro. Na sequência, a reforma tributária, ainda mais difícil de ser aceita por governadores, mesmo considerando que o governo voltou atrás (pelo menos por enquanto) em reeditar a CPMF travestida de Contribuição sobre Pagamentos. Será preciso avaliar a performance do presidente Bolsonaro na abertura da reunião da Organização das Nações Unidas (ONU) em 24 de setembro, quando o mundo estará atento ao seu discurso, principalmente no que tange à preservação ambiental. Tempo para se preparar o presidente terá, já que pode usar seu período de convalescência.

Nossa percepção é que mesmo com o curto prazo difícil de ser avaliado e embutindo forte volatilidade, ainda assim mantemos o otimismo para médio e longo prazo, desde que reformas estejam bem encaminhadas e os abalos internacionais não sejam tão graves ao ponto de trazer de volta a forte aversão ao risco.

Até a próxima semana.