A semana é de decisão do Copom sobre política monetária, e as previsões de taxa Selic que vigoravam anteriormente já migraram. Antes tínhamos a manutenção da Selic em 6,75% durante todo o ano de 2018. Mas agora os analistas incorporaram 6,50% como taxa de final do ano, mas com expectativa de que o Bacen deixe aberta a porta para novas quedas no comunicado. Além da ata da reunião que acontece em 21 de março. Bom dizer que no mesmo dia o FOMC do FED faz reunião. Diferentemente do Brasil, nos EUA a expectativa é de elevação da taxa de juros básica em 0,25%.

Os últimos dados de inflação no Brasil suportam uma atitude de baixar a Selic para 6,50% e deixar a porta aberta para novas quedas. Os alimentos em desinflação, a própria inflação bem abaixo da meta (prevista na Focus mais recente em queda para 3,63%). Além da safra 2018, melhorando da queda que estava sendo prevista para contração de 5,6%, dão base para tal. Além disso, choveu em reservatórios importantes do país e isso pode ser garantia de mais alguns meses com bandeira verde.

Do lado externo, até o momento não temos problemas mais graves. As previsões de superávit na balança comercial mostram US$ 55 bilhões para o ano em curso. Os investimentos diretos no país devem seguir cobrindo fartamente o déficit em conta corrente, que segundo o presidente do Bacen não atingem nem 0,5% do PIB. A dúvida nesse segmento fica por conta da atitude do governo americano em sobretaxar importações de produtos de aço e alumínio, situação que atinge diretamente o Brasil, pois somos o segundo maior exportador para os EUA no ramo.

Temos que considerar que pode gerar uma espécie de guerra comercial, com outros países erguendo barreiras para suas importações. Com isso, o comércio transnacional tenderia a encolher e, no final da linha, poderia afetar o crescimento econômico global. O positivo de tudo isso é que nenhum país deseja tal situação, e todos parecem caminhar para negociações com os EUA. Trump, por sua vez, admite isenções e o governo americano diz conversar com países sobre isso. Na mesma direção, ninguém parece querer entrar com retaliações e/ou denúncias na OMC (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Pela OMC resoluções poderiam ser demoradas, e ainda ter relações esgarçadas com a maior economia do mundo.

Outra preocupação que pode comprometer postura mais agressiva do Bacen se refere ao comportamento dos juros no mercado internacional. O próprio Ilan Goldfajn em palestra na Argentina destacou isso como problema. Todos sabem que a tendência presente é de bancos centrais irem normalizando suas políticas monetárias, deixando para trás maior flexibilização e também normalizando o tamanho de seus balanços. O primeiro a ir nessa direção foi o FED que deve prosseguir nisso nas próximas reuniões. Mas temos que considerar que o BoE (BC Inglês) deve ir na mesma direção, além de outros.

O BCE (BC Europeu) deve trocar o presidente Mario Draghi, por Weidman da Alemanha que tem postura menos suave que o presidente atual. Mas de qualquer forma, aparentemente nada muda, pelo menos até setembro ou um pouco mais. Porém, existem pressões puxando na direção contrária. No Japão, apesar de Kuroda reconduzido à presidência seguir falando de flexibilização agressiva, as últimas atas de reunião do BoJ (BC Japonês) mostram dissidências. Isso agrava um pouco mais quando sabemos que Shinzo Abe (primeiro ministro japonês) tem popularidade em descenso, envolvido com denúncias de corrupção em seu governo. Outros bancos centrais podem rever suas políticas de flexibilização, como Austrália Canadá e outros de menor importância.

Ilan Goldfajn disse que o Brasil tem amortecedores para aguentar solavancos na economia global, mas o temor é que os juros externos podem não seguir exatamente políticas tão graduais de ajuste, fato que afetaria o volume de recursos destinados para emergentes. Podemos acrescentar ainda que no caso específico do Brasil, o fato de já termos detonado o processo eleitoral com duas dezenas de pré-candidatos, inviabiliza votações de ajustes importantes na economia.

Portanto, vamos precisar avaliar não só o comportamento desses fatores, mas entender se o Bacen será ou não mais agressivo na formatação da política monetária sem ajustes na economia.

Por Alvaro Bandeira
Sócio e Economista Chefe home broker modalmais