É notório o agravamento da situação política brasileira diante do firme propósito do Presidente Temer em não renunciar. Na semana passada, tivemos reunião do PSDB onde a decisão foi de não sair da base de apoio do governo, mas o partido ficou ainda mais cindido entre “cabeças pretas” e “cabeças brancas”. Predominou a posição dos caciques históricos do partido, com a vertente de escape de que seria assim desde que nada de novo acontecesse.

Logo em seguida, o ex-presidente FHC embaralhou ainda mais o caos, ao propor atitude magnânima de Michel Temer de convocar eleições gerais antecipadas. Isso foi no sentido de aplacar dissenções no partido, mas complicou ainda mais. Votar em quem? nos mesmos políticos contaminados? quais seriam os prováveis candidatos a vaga de Temer?

Se isso já embaralhava mais o quadro político, a situação aguçou ainda mais durante o final de semana. A Revista Época divulgou entrevista com Joesley Batista que acusava Temer de ser o “chefe da quadrilha mais perigosa do Brasil” e que a corrupção foi disseminada no governo do PT. Temer se viu obrigado a divulgar nota oficial da Presidência chamando Joesley de “criminoso notório” e que estaria processando o empresário logo no início da semana. Também divulgou vídeo para ser divulgado nas redes sociais.

Tentando mostrar um mínimo de governabilidade, o presidente manteve sua agenda de viagem para a Rússia e Noruega para mostrar a situação do país ao mesmo tempo em que estimulou o andamento das reformas, especialmente a trabalhista junto ao legislativo. Normalidade, mas nem tanto. Seu fiel escudeiro, Moreira Franco, ficou no Brasil, ele mesmo envolvido até os ossos na Lava Jato. Enquanto isso, o aliado Rodrigo Maia, presidente em exercício, se esmera em conseguir os tais 172 votos necessários para bloquear a denúncia contra o presidente no plenário da Câmara. Isso parece até algo fácil de ser atingido.

Apesar disso, a semana reserva outros lances políticos importantes que retiram o foco de dar seguimento às reformas. Esta inicialmente marcada para 20 de junho. O STF em sua primeira turma vai julgar o pedido de prisão de Aécio Neves, a Polícia Federal tem que encerrar as investigações sobre o presidente e a PGR pode denunciar o presidente até sexta-feira. Aécio deve conseguir escapar da prisão, mas deve ser mantido seu afastamento das atividades políticas. Já o presidente não deve escapar da denúncia e isso vai certamente estressar ainda mais os ânimos dos partidos, oposição e dos mercados de risco.

Com isso, o trâmite das reformas nas comissões e plenária vai sendo adiado e, por via de consequência, o ajuste da economia. É claro que atrasos na reforma da Previdência e Trabalhista em poucos dias ou mês não faz qualquer diferença na economia, mas interfere no humor da sociedade (aí incluído os políticos) e na percepção dos investidores locais e estrangeiros. Igualmente, traz algum perigo ao atingimento da meta de déficit de R$ 139 bilhões estabelecida pela área econômica, açodada pela abertura do “saco de bondades” que o presidente abriu para políticos e empresários. Isso gera insatisfação nos brilhantes técnicos da equipe econômica.

O ambiente de negócios é ruim e quem em sã consciência apostaria em Brasil, se não for um negócio pechincha. A sociedade está cindida e depressiva, os três poderes não se entendem e dentro deles acorrem as mesmas cisões. Pior, as chances de melhora estão distantes e isso empurra o Brasil ainda mais.

Vamos ter que definir o quadro político antes de tudo, cooptar a sociedade e só depois reconduzir o país aos trilhos. Será que temos tempo para tal? será que o Executivo e Legislativo serão capazes disso?

Lamentavelmente não temos a resposta.

Situação política complicada
Por Alvaro Bandeira
Sócio e Economista Chefe home broker modalmais