A disseminação do coronavírus é o motivo principal que deverá influenciar o comportamento dos mercados de risco em todo o mundo nos próximos períodos.

O surto, que começou atacando pessoas na província de Wuhan na China, agora atinge muitos outros países e regiões da própria China. O dirigente da província chinesa disse que escondeu o tamanho da contaminação e colocou seu cargo à disposição. Mas o fato é que, o governo chinês vem se desdobrando para isolar a doença, mas até aqui sem sucesso.

O governo do presidente Xi Jinping considerou a propagação do vírus como grave e desde o meio da semana passada vem adotando normas rígidas para conter o vírus. O pior é que isso aconteceu exatamente às vésperas do longo feriado chinês de comemorações do Ano Novo Lunar, quando a população viaja muito para sua região natal, consome muitos produtos e serviços e fazem turismo. Há restrições que abrangem, inclusive, as regiões de Xangai e Pequim.

Com o isolamento e restrições de viagens, a tendência é evitar a infecção de pessoas principalmente no período de incubação (quando ainda não existem sintomas presentes), mas ao mesmo tempo, reduz bastante os gastos com consumo de bens e serviços, de certa forma irrecuperáveis para a economia. Daí deriva a percepção de que o PIB chinês pode encolher em até 0,8% no primeiro semestre, com baixa possibilidade de ser reduzido ao longo do ano, já que a data principal passou. O governo chinês, prolongou por mais três dias os feriados do Ano Novo, na tentativa de cercear um pouco mais a livre circulação, mas isso também traz consequências sobre o giro e expansão da economia.

É bom lembrar que a China registrou crescimento do PIB em 2019 de 6,1%, seu menor nível em 29 anos. Mas, vem voltando a realizar pesados investimentos em suas províncias para garantir que o crescimento se mantenha ao redor de 6% ao ano, como forma de o sistema de governo não ser questionado pela população.

Mas o que se deseja observar é o quanto o crescimento de 2020 estará comprometido e como isso vai influir no comércio transnacional, já que a China é hoje o parceiro de vulto. Também se pretende entender como isso irá influir no preço das commodities e afetar empresas de diferentes países, inclusive no Brasil, grande exportador de proteína e minério para a China.

Por agora, o que se tem é somente um surto do vírus, ainda não caracterizando epidemia e longe de uma pandemia. A OMS (Organização Mundial da Saúde), diz desde sexta-feira que a situação não é emergencial. Porém, começamos o dia 27/1 com 2.835 pessoas infectadas na China e com 81 mortes computadas. O Canadá e o Camboja também já relataram casos da doença.

Os mercados vinham reagindo com certa naturalidade para o fato, porém, na sessão de 27/1, aceleraram proteção dos investimentos e o resultado foi de Bolsas em queda forte, câmbio desequilibrado e busca por ativos de maior proteção como o ouro. As commodities passaram a ceder forte na Bolsa de Chicago e o petróleo chegou a estar em forte queda no início da manhã de hoje, só recuperando um pouco depois que a OPEP sinalizou que poderia manter a redução de produção do óleo por todo o ano de 2020. Também mudou um pouco a percepção dos investidores com relação à atitude do FED na reunião de 29/1. De manutenção da taxa de juros, já encontramos quem justifique uma redução por conta disso.

Por aqui ainda não sentimos grandes reflexos, exceto, talvez, na performance do dólar que vazou o patamar de R$ 4,22. Mas o governo vai ter que ficar atento com nosso superávit da balança comercial que pode encolher mais, e quase como consequência com o déficit em conta-corrente que pode ter redução da cobertura pelo menor ingresso de investimentos diretos no país.

A sugestão é que nesses momentos, os investidores mantenham a “cabeça fria” evitando precipitações. Também pode ser um bom momento para aqueles que possuem maior propensão ao risco, pois é exatamente nessas horas que se pode comprar por meio de “pechinchas”. Mas tudo deve ser feito com a maior consciência e dimensionando riscos individuais.

Alvaro Bandeira