Alvaro Bandeira é sócio e economista-chefe do banco digital modalmais

Não bastassem todos os efeitos produzidos nos mercados pelo coronavírus, os investidores arranjaram um novo motivo de preocupação na “guerra fria” entre a Arábia Saudita e a Rússia.

No final da semana passado, em reunião da OPEP+, a Rússia acabou rejeitando a proposta da OPEP de um corte adicional (depois de dois outros já feitos) de cerca de 1,5 milhão de BPD (barris de petróleo/dia). Ato contínuo, a Arábia Saudita anunciou que bateria recorde de produção e daria descontos aos clientes em preço. A Rússia não se fez de rogada e declarou que poderia suportar o preço do barril de óleo entre US$ 25 e US$ 30 por cerca de 10 anos.

Segundo especialistas do ramo, a Rússia tem algumas vantagens competitivas sobre a Arábia Saudita, apesar de os sauditas terem o menor custo de extração, mas também temos que considerar em toda essa disputa, a pressão de outros países do Oriente Médio que são “petróleo-dependentes” para suas economias funcionarem, e que certamente não ficaram nada satisfeitos com a queda do barril de óleo de mais de 25%, na sessão de abertura em 09/3. Na madrugada desse dia, o barril chegou a estar em queda de mais de 30%.

O pregão do dia seguinte (10/3) trouxe logo cedo declarações da Aramco dizendo que irá produzir em abril 12,3 milhões de BPD, e a Rússia declarando que pode ampliar sua produção rapidamente. Mas logo em seguida, a Rússia contemporizou dizendo estar promovendo encontro de produtores de óleo para discutir com a OPEP formas de conciliação para acalmar os mercados. Certamente as pressões sobre os dois gigantes já começaram.

Talvez o petróleo seja a commodity mais difícil de se prever preços futuros. Além dos gigantes do setor e economias complicadas, temos vizinhança secularmente conflitadas, zonas de escoamento de produção fácil de ser barrada (Estreito de Ormuz, por exemplo), bloqueios internacionais (Irã); e assim vamos.

Qualquer desequilíbrio nas relações frágeis pode alterar drasticamente o preço da commodity e afetar todo o mundo.
A tempestade perfeita fica por conta da adição do impacto do coronavírus. Antes disso, já existiam projeções de crescimento menor para a China e a possibilidade do Japão e zona do euro entrarem em recessão, o que pode acontecer também com a Alemanha. Aparentemente, só os EUA poderiam andar melhor em 2020, porém com leve desaceleração e algumas dúvidas de economistas, dada a inversão da curva de juros, que no passado sinalizou processos recessivos.

Pois bem, o coronavírus, apesar de do ponto de vista científico ser só mais uma cepa do vírus corona (COVID-19) e bem menos letal e importante que outros vírus anteriores, só agrava o quadro da economia global. Vai atingir um pedaço do PIB do primeiro e também do segundo trimestre, mas tem possibilidade de recuperar bem no segundo semestre. Isso é ainda mais verdade quando vemos a mobilização internacional de bancos centrais e governos na tentativa de minimizar impactos.

Só para lembrar, nas duas últimas semanas vários bancos centrais reduziram juros (incluindo o FED americano), outros se preparam para juros e outras políticas de flexibilização (QE= quantitative easing), enquanto governos se preparam para políticas fiscais estimulativas, como EUA, Austrália e Japão.

Enquanto isso não ocorre, os mercados de risco em todo o mundo já sofrem com os desequilíbrios nas commodities, nas moedas e nos juros. Nem mesmo o ouro, que nessas horas é o ativo recorrente de proteção, tem ficado imune. A destruição de valor dos ativos tem sido brutal no mundo e a sensação de perda de riqueza inibe investimentos, dificulta o crédito e bate de frente no crescimento econômico.

Além disso, existem todos os outros fatores que trazem distúrbios aos mercados, como chamadas de margem em operações com derivativos, bruscas mudanças de posição por aversão ao risco (emocional funcionando) e resgate de aplicações em fundos de ações e multimercados, agregando pressão de venda dos ativos.

Se é que podemos extrair alguma coisa de positiva de tudo isso, ela estaria na forte desaceleração da curva de contágio na China (e deve começar a acontecer também em outros países) e na pressão de países produtores de petróleo para chegarem em posição de consenso. Portanto, nessas horas os investidores devem afastar o emocional e buscar o racional da situação, vis a vis a propensão individual ao risco, sopesando também que perdas acentuadas incorridas demorariam alguns anos para serem equilibradas no nível atual dos juros.

Boa sorte e equilíbrio em suas decisões. Me rotulo como um otimista convicto e, como tal, aposta na resolução dos problemas relatados. Porém, ainda fica faltando definir como serão solucionados os nossos problemas domésticos, que parecem até mais difíceis de resolução.

Alvaro Bandeira

Abraços,