Os mercados começam a dar sinais que a trégua inicial dada ao novo presidente Michel Temer pode estar terminando. Nesse início de semana, o New York Times já postou em editorial que a defesa de Temer sobre a operação Lava Jato é vazia. Temer precisaria dar demonstrações mais inequívocas de apoio, além da discursiva sempre lembrada.

O governo Temer ainda nem completou um mês e nesse período três ministros já foram afastados (um nem chegou a ser empossado) e existem outros pendurados em denúncias da Lava Jato e Zelotes. Não sabemos exatamente que compromissos políticos levaram Temer a indicar ministros comprometidos com denúncias, até porque não foi por falta de avisos.

A sociedade brasileira exige um governo totalmente apartado das denúncias de corrupção e isso tem demonstrado ser difícil na prática, dado o enorme envolvimento da classe política. Porém, repetimos que o presidente Temer deveria estabelecer um padrão para seus comandados mais diretos, do tipo: foi citado com prova, está invariavelmente afastado do governo.

O presidente Temer precisa de uma trégua maior que os trinta dias ainda não decorridos. Seu governo sequer está formado e já necessita de novas alterações por conta de denúncias. É verdade que a equipe econômica é do melhor calibre e com condições de tentar colocar o país em ordem, mas não pode ficar refém da área política e denúncias sobre outros colaboradores de Temer. Isso provoca ruídos absolutamente evitáveis e só reforçaria o apoio da sociedade brasileira, que tem olhado muito e não tem se posicionado. Enquanto isso, movimentos sociais de apoio à presidente afastada (pequenos é bem verdade) fazem algum burburinho e invadem dependências do governo criando clima ruim.

O governo mostrou força aprovando o déficit fiscal de R$ 170,5 bilhões, e depois a DRU (Desvinculação de Receita da União) estendida até 2023 e com 30% da receita. Porém, precisa muito mais. Precisa, por exemplo, aprovar o limite de crescimento dos gastos à taxa de inflação (crescimento real zero) e formatar reformas de base importantes. Na pole position teríamos mudanças na Previdência Social e, muito provavelmente, aumento temporário da carga tributária, mesmo desconsiderando a volta da CPMF.

Precisa ainda negociar um perdão para os Estados “quebrados”, ao mesmo tempo em que os recoloque na camisa de força de ajustar receitas e despesas. Tudo isso implica em manter uma lua de mel com o poder Legislativo e Judiciário, e muita tranquilidade para tocar as mudanças de curto prazo com a eficiente equipe econômica. Temer tem o dever de não deixar (assim como no governo de Dilma) que a crise política volte a dominar a economia. Temer necessita de maior trégua para governar com tranquilidade em sua interinidade, coisa que até aqui não conseguiu, sendo surpreendido diuturnamente por denúncias e problemas em sua equipe.

Estabeleça um padrão de conduta para seus comandados, busque essa trégua com o Legislativo, afaste os envolvidos em denúncias (pelo menos até que sejam inocentados) e mostre para a sociedade que fará o que for preciso para recondução do país à normalidade. Com isso, terá o apoio da população e credibilidade dos investidores locais e estrangeiros para retomada dos investimentos e com isso fazer a roda da economia começar a girar no sentido virtuoso, tirando o Brasil do imobilismo.

Presidente Temer, Martin Luther King dir-lhe-ia que “O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons”.