Eu sei, com certeza sabemos que está muito difícil ser otimista nos dias que corre. Nós mesmos aqui nesse espaço só temos reportado situações dramáticas, seja no plano econômico e, principalmente, no âmbito político. Alias, não há como intuir outra coisa, quando as reformas do Estado demoraram a sair do plano teórico para o prático, quando os dados de conjuntura chegam até a ficarem melhores mas não ao ponto de nos reposicionar em zona de conforto; e ainda por cima quando os três poderes brigam entre si.

O governo tenta por todos os meios demonstrar que o país não está parado, faz carnaval quando coleta algum dado levemente positivo, ou mesmo quando fala de metas mantidas, como a do déficit fiscal em R$ 139 bilhões. Qualquer “cochilo” do governo, acaba gerando situações como, perder a Reforma Trabalhista na CAS (Comissão de Assuntos Sociais), quando todos sabem que a gestão de Temer não pode se dar “ao luxo” de perder nada, sob pena de arranhar a precária governabilidade.

Por mais que Temer, seus ministros e técnicos se esmerem em aventar que a situação está e vai melhorar, ainda estamos muito distantes disso, especialmente depois do terremoto causado a partir de 17 de maio, quando foi divulgada parte dos áudios gerados por Joesley Batista com o presidente Temer nas profundezas do Jaburu. De lá para cá, e se passa um mês e meio, nada andou nesse país, muito menos investimentos. Todos esperam definições que relutam em serem apresentadas, prolongando o sangramento de uma nação que já atravessou dois anos de recessão e que promete crescimento pífio também para esse ano.

Bom, passado o terremoto de meados de maio quando os mercados reajustaram forte para baixo e dólar para cima, a situação foi ganhando ares de certa tranquilidade e os preços dos ativos foram ajustando. Agora, estamos em níveis próximos daqueles dias e como diz a linguagem popular, ficam “trocando seis por meia dúzia”, em limites próximos daqueles mínimos registrados.

A pergunta que cabe é então a seguinte: se a situação é mesmo grave assim, então por que os mercados não seguiram ajustando em queda? a resposta óbvia é que os preços dos ativos já estão razoavelmente ajustados para o nível do noticiário corrente. Portanto, seria preciso alguma mudança de nível de informação para os mercados voltarem a reprecificar. E é ai que entra a tal dose de otimismo.

Os investidores, as empresas, fundos de pensão e outros estão totalmente desalavancados e vazios de operações arriscadas. Isso significa dizer que qualquer sinal, por mais tênue que seja e com consistência, vai provocar realocação de recursos e puxar os mercados de risco, dólar mais comportado e bolsa mais pressionada na compra. Ao contrário, com quadro pior do lado político, haveria algum ajuste em queda.

O problema está em definir de que lado virão tais mudanças. Pior ou melhor? Nossa opinião é de que vale o risco de começar a arriscar um pouco mais em operações de renda variável, principalmente se elas vieram acompanhadas de posições em derivativos para minimizar riscos maiores de exposição. O mesmo comportamento pode ser atribuído para aquisições com horizontes temporais mais dilatados para retorno, com aplicações progressivas, aproveitando preços deprimidos nos mercados. Seria indicada certa prudência, optando por aplicações em ações mais conservadoras, de segmentos maduros, com link forte em exportações e boa governança corporativa. Recomendável que tenha perfeita e definida postura de distribuição de resultados.

Às vezes é necessário sair da mesmice e buscar alternativas em momentos de crise. Ou então ficar com frase de Carlos Drummond de Andrade: “a minha vontade é forte, mas a minha disposição de obedecer-lhe é fraca”.

Por Alvaro Bandeira
Sócio e Economista Chefe home broker modalmais