UMA SEMANA COMPLICADA
Alvaro bandeira é sócio e economista-chefe do banco digital modalmais

A semana que está apenas começando se avizinha complicada para os mercados de risco em todo o mundo, com alguma ênfase para o doméstico. Começamos com feriado nos EUA que torna a semana mais curta, justamente em dia de vencimento do derivativo de opções na Bovespa para o prazo fevereiro. Desnecessário dizer que o dia fica complicado pela queda da liquidez internacional, e também com efeitos sobre a precificação dos ativos. Já sobre o vencimento de opções sempre agrega maior volatilidade aos preços dos principais ativos e sugere ajustes de posições no dia e em pregões seguintes.

A semana também fica complicada por conta da desaceleração interna, em função do prolongado feriado de Carnaval, com investidores estressados em todo o mundo por força do coronavírus. Aliás, já que falamos do coronavírus, as últimas estatísticas produzidas no final de semana indicam a contaminação de cerca de 70.000 pessoas, com 1.800 mortes confirmadas, com forte concentração em idosos com saúde já precária.

Se podemos extrair alguma coisa de positivo disso, o primeiro-ministro da China Li Keqiang falando pelo Conselho de Estado disse que o surto do vírus se enfraqueceu durante o final de semana. Mesmo considerando isso e provável inflexão da curva de contágio, vários países começam a se movimentar no sentido de flexibilizar a política monetária e fiscal. O PBOC (Banco Central Chinês) acaba de reduzir a taxa de juros dos empréstimos de um ano de 3,25% para 3,15%, enquanto o Bundesbank da Alemanha, sempre reflexivo à estímulos passando a sugerir mudanças fiscais por conta do coronavírus. Certamente o PIB alemão estável no quarto trimestre de 2019 acendeu uma luz amarela sobre o crescimento.

Enquanto isso, nossos vizinhos na Argentina dizem que a dívida contraída no governo de Macri é impagável, e tenta negociar algum acordo com o FMI, ao mesmo tempo, em que prepara o enésimo calote de sua dívida externa, postergando para setembro a que está vencendo, e toma outras medidas. O ministro da economia disse ser cruel fazer ajuste fiscal com o País em recessão e inflação anualizada em janeiro de 52,9%. Mas o FMI, por sua diretora-geral Georgieva, já adiantou que não pode oferecer descontos em empréstimos ao País.

Aqui, com sorte o ano deve começar no meio da próxima semana, como sempre depois do Carnaval. Seguimos criticando o senso de urgência do Congresso Nacional e Judiciário em aprovar medidas e reformas que realmente importam para ajustar a economia, mas agora também observamos certa leniência do Executivo, principalmente com relação à reforma Administrativa e projeto de Reforma tributária e/ou de encaminhar sugestões para os projetos que já tramitam na Câmara e Senado.

Pode ser que na semana seja possível nomear os 50 membros (25 de cada casa) que irão compor a comissão mista que irá discutir, propor mudanças e dar seguimento para votação plenária. Contudo essas discussões fundamentais e votos ficaram todos para depois das folias carnavalescas. Não custa lembrar que por definição o ano é curto pelas eleições de prefeitos nos municípios, e que depois de julho (talvez), seria muito difícil aprovar alguma reforma ou medida substantiva para ajustar a economia.

Nossa avaliação é que estamos perdendo preciosos dias para sinalizar aos investidores do mundo e também locais que o Brasil quer ajustar sua economia. Ao contrário, temos indicações de liberação de recursos dos Fundos (pela PEC em estudo) vazam o teto de gastos, driblando a austeridade fiscal absolutamente necessária.

Como se pode depreender, o momento é complicado e isso se expressa claramente de duas formas: de um lado as projeções de crescimento do PIB em 2020 começam a encolher para próxima de 2% (na pesquisa Focus caiu para 2,23% de anterior em 2,30%) e com viés de baixa e os investidores externos seguem retirando recursos da Bovespa, que atinge no ano (até 12/2) R$ 25,4 bilhões, já atingido 57% de tudo que saiu ao longo de 2019.

Fica restando somente que os três poderes se imbuam do espírito nacionalista e que façam ou encaminhem, nos meses que ainda restam em 2020, as reformas necessárias e do tamanho certo.

Alvaro Bandeira