“Flopou” é uma gíria das redes sociais para indicar que algo ficou ruim. Claro que estamos nos referindo ao rompimento da barragem de Brumadinho. Barragem de propriedade da Vale, gigante da mineração mundial e referência no mundo. A empresa já tinha sofrido alguns arranhões no passado com o desastre de Mariana, no rompimento de uma barragem muito maior da Samarco.

Agora, é como diz o presidente da Vale: o dano ambiental será bem menor, mas o caos humanitário será muito maior que os 19 mortos em Mariana. A empresa já computa 60 mortos na manhã de 28 de janeiro, mas esse quadro ainda vai ampliar nos próximos dias e, por conta da tragédia ocorrida, muitos corpos sequer serão resgatados.

O que já sabemos em relação à tragédia até o momento (28 de janeiro), é que a justiça brasileira já bloqueou cerca de R$ 12 bilhões em recursos da empresa. O Conselho de Administração suspendeu o pagamento de dividendos e juros sobre o capital próprio que seriam distribuídos em função dos resultados de 2018.

A empresa possui um autosseguro de cerca de US$ 300 milhões para cobrir danos ambientais, e seus funcionários (a maioria dos mortos era de empregados ou terceirizados pela Vale) tinham seguro de vida no Bradesco. Hoje já são 60 mortos e 192 resgatados de um total de 305 desaparecidos.

Do ponto de vista operacional e na teoria, a Vale pouco sofreria, dado que a área é responsável por cerca de 2,0% da produção total e existe capacidade ociosa e possibilidade de remanejar. O mesmo acontece com a ferrovia Vitória-Minas e escoamento da produção do sistema de Minas Gerias. Mas do ponto de vista financeiro, as indenizações às famílias podem ser elevadas, e certamente teremos ação coletiva de investidores no exterior, e possivelmente também no Brasil. No que tange ao mercado acionário e performance de suas ações.

Certamente, a empresa conviverá com rebaixamento em sua classificação de risco. A Macquarie já cortou Vale de outperform para neutra, e a Clarkson Securities cortou o preço do ADRs de US$ 18 para US$ 12. A gigante internacional de rating S&P colocou a empresa em observação para possível rebaixamento, e isso deve ser acompanhado por outras agências de grande expressão internacional. As ações ordinárias da Vale estão entre as três maiores do mercado e correspondem a cerca de 11% da ponderação do Ibovespa.

A questão que se apresenta e para qual não é possível ter uma resposta nesse momento se refere aos danos de médio e longo prazos para a companhia. Como o governo agirá em termos de endurecimento do marco regulatório do setor de mineração e qual será a responsabilização a partir dos dois desastres (Mariana e Brumadinho)?

Como os problemas de bloqueio de recursos poderá afetar as atividades da empresa no médio e longo prazo? Qual será o montante de indenizações às famílias e quanto disso estará coberto por seguros de forma geral? Quais serão os desdobramentos de eventuais ações coletivas no Brasil e no exterior?

Será preciso mensurar os impactos econômicos e financeiros para a Vale, e principalmente quais os danos à imagem da empresa. Sabemos que no passado a mineração australiana sofreu bastante com desmoronamentos ocorridos.

No Brasil, ainda é muito cedo para dimensionar os impactos. Na abertura dos negócios, a Vale registrou queda de mais de 20%, mas por enquanto ainda não encontrou (e nem vai) achar seu ponto de suporte. Certamente teremos muita volatilidade e declarações contrárias que em nada vão ajudar na precificação desse ativo. Adicionalmente, afeta outras ações de siderúrgicas e mineração e ações de investidores da Vale; como a Bradespar.