As temáticas fundamentais desta última semana permaneceram inalteradas: surto de coronavirus e preço do petróleo. Ambos tiveram consequências significativas para os preços de ativos, especialmente no Brasil, que começou a passar pela fase ascendente do surto de COVID19. Houve atuação significativa de bancos centrais e governos ao redor do mundo para combater todas as esferas da crise.

Os mercados internacionais abriram já no domingo com mais um corte extraordinário do Banco Central Americano (FED), que, ao cortar 1%, a taxa de juros para a banda de 0-0.25%. Foi anunciada também atuação via aumento do balanço. Para finalizar a ‘bazuca monetária’ (como as medidas foram definidas no mercado), o FED comentou que suas ações foram coordenadas com outras instituições monetárias globais. Assim, observamos o estabelecimento de linhas de swap (que desde quinta-feira englobam também o Banco Central do Brasil) e movimentos de cortes de juros significativos em todo o mundo.

Menciona-se aqui especificamente também a atuação do Banco Central Europeu (ECB, na sigla em inglês) na quarta-feira à noite, que contribuiu de forma significativa para acomodação monetária através de um amplo programa de compra de ativos públicos e privados. Ademais, tanto o FED como o ECB colocaram a possibilidade de intervenção no mercado de crédito através de possível compra de títulos privados de curta duração. Todas as medidas anunciadas começaram a surtir efeito na quinta-feira, com o princípio de alívio nos funding markets e também na busca desenfreada por dólares americanos.

De qualquer forma, as notícias relativas a economia real seguem negativas em consequência do COVID19. A expectativa precificada pelo mercado vem se confirmando nos dados: o grave choque de oferta e demanda causado pelo surto através das quarentenas forçadas e queda no fluxo de mercadorias e pessoas terá impacto significativo no crescimento econômico global. Veremos o aumento do desemprego e a queda na demanda privada. O que pode ser dito de qualquer forma é que, além da atuação de bancos centrais, os governos estão se movimentando na esfera fiscal e de saúde para tentar amenizar o máximo possível os efeitos negativos da crise.

Aqui no Brasil não foi diferente. Ao longo da semana, uma série de anúncios do lado fiscal mostraram que o governo caminha no sentido correto para amenizar em parte os efeitos negativos da crise. Ainda assim, espera-se que o crescimento este ano seja fortemente impactado e esperamos crescimento próximo a zero ou possivelmente negativo para 2020. A real dimensão do problema será conhecida somente quando tivermos certeza do momento em que a circulação de bens, serviços e pessoas voltará ao normal na economia. A bolsa local precificou um cenário fortemente recessivo ao longo das últimas semanas.

O Banco Central cortou a taxa de juros em 0.50% levando a SELIC a novo piso histórico em 3.75%. O comunicado surpreendeu pelo lado cauteloso, mostrando que o Banco Central não deve ser convencido facilmente da necessidade de novos cortes no curto prazo. Especificamente, o Banco Central chama atenção para nova rodada de piora nos indicadores fiscais do setor público, dada a queda de receita e aumento das despesas em consequência da crise.  Continuamos esperando que a SELIC permaneça no patamar atual até o final do ano, mas os riscos são evidentemente de mais cortes.

O BC atuou novamente no dólar ao longo da semana, com diversas intervenções utilizado instrumentos variados. O comunicado do COPOM mostrou também intenção da autoridade monetária em atuar no mercado cambial para estabilizar possíveis distorções. Em suma, ante o descolamento de preços em todos os mercados (DI, bolsa, câmbio), vimos um BC disposto a atuar para garantir o bom funcionamento dos mesmos através de uma postura de política monetária cautelosa.

A guisa de conclusão, mencionamos novamente que o cenário permanece extremamente fluido. O fluxo de informações constantes sobre a crise de saúde e econômica não está ajudando na compreensão precisa sobre os efeitos mais prováveis do período em que vivemos. Esperamos, como as autoridades, um aumento na quantidade de casos confirmados do COVID-19 no Brasil, o que justifica evidentemente todas as medidas de contenção tomadas.

No entanto, acreditamos também que a movimentação nos mercados foi muito significativa ao longo das últimas semanas: a alta volatilidade retirou parâmetro dos preços de ativos, que se comportaram em linha com sensação de pânico generalizado. Na medida em que a volatilidade reduzir e os preços se estabilizarem, teremos claras possibilidades de reprecificação positiva.

Assim, mantemos nossa recomendação de alocação da semana passada: “acreditamos que houve um grande desmonte de posição ao longo das últimas duas semanas e que isto abriu oportunidades atrativas para investimentos. Evidentemente, há chance de não termos chegado ao final do ajuste e as notícias seguem extremamente voláteis, mas também não há como negar o surgimento de oportunidade. Isto vale para todas as classes de ativos: renda variável, renda fixa e dólar.

Por Felipe Lacs Sichel