RESUMO DA SEMANA

 

Mais uma semana extremamente difícil para os mercados de risco em todo o mundo, e é claro que o foco central dos investidores esteve sempre na propagação do coronavírus na China e também em muitos outros países, com a contaminação superando o surto de SARS também na China em 2002 e 2003. Também podemos considerar as preocupações com a desaceleração econômica global, já com o primeiro trimestre da China prejudicada. Aqui, com Congresso e Judiciário em recesso ficamos mesmo por conta do noticiário do executivo, indicadores e boa animação com o início do novo ano legislativo e agenda lotada de reformas.

 

No cenário externo a situação esteve muito comprometida pela curva ascendente de contaminação do coronavírus, já computados mais de 10.000 infectados e 213 mortos. Também foi propagado para cerca de 20 países. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), a China tem feito bom trabalho na tentativa de isolar o vírus, exatamente na época do feriado prolongado do Ano Novo Lunar, justamente quando aumenta o consumo de bens e serviços, e há forte uso de todos os meios de transporte. A China tem adotado enorme restrições para viagens no país, alongou o feriado por mais dez dias em regiões e tem sido totalmente transparente em notificar o que está ocorrendo no país, inclusive passando isso para o resto do mundo.

 

Por sua vez, países com notificações de casos ou não já estão adotando medidas de controle, evitando viagens para a China, cancelando voos e repatriando pessoas na região. Mas ainda assim, a propagação seguida em curva ascendente, como é natural no início da propagação. A China já denota dificuldades de remédios em algumas regiões principalmente na província de Hubei, epicentro do surto. A dificuldade está em domar o surto e não deixar que se transforme em epidemia ou pandemia. Já a OMS, declarou emergência global de saúde pública.

 

A semana incorporou as reuniões de política monetária do FED (EUA) e BOE (Banco Central Inglês) com juros mantidos nos dois casos. Nos EUA, juros na faixa entre 1,50% e 1,75%, enquanto na Inglaterra juros em 0,75%, mas com dois dissidentes querendo redução de 0,50%. Investidores esperam que na próxima reunião os juros sejam reduzidos, até por conta do Brexit. As compras de títulos também foram mantidas em seus patamares. Apesar de as decisões já serem esperadas, a coletiva do presidente Jerome Powell forçou os mercados em queda. Powell acabou saindo do script dizendo ser cedo para avaliar os impactos do coronavírus e acordo comercial com a China, mas manifestou preocupação com a expansão da dívida corporativa e preços de ativos em alta. Já Mark Carney do BOE, disse que índices de atividade começam a mostrar nova recuperação da economia global.

 

A semana também registrou a divulgação de indicadores importantes e continuidade da safra de balanços. Nos EUA, leitura do PIB referente ao quarto trimestre mostrou expansão anualizada de 2,1% (igual ao previsto) e a inflação pelo PCE (gastos com consumo) em 1,6% com núcleo em 1,3%. As vendas de imóveis novos encolheram em dezembro 0,4%, o índice de atividade de Dallas subiu para 108 pontos em janeiro no maior nível desde novembro de 2012 e o de Richmond em alta para 20 pontos (o maior desde 2013). Já as encomendas de bens duráveis de dezembro cresceram 2,4%, de previsão de -0,3% e a confiança do consumidor em alta para 131,6, de anterior em 128,2 pontos. As vendas pendentes de imóveis encolheram 4,9% em dezembro. A Câmara americana também aprovou medida para conter o uso de força militar por Trump.

 

No Reino Unido, foi anunciado que as negociações pós-Brexit começam no dia 03/3, mas devem ser demoradas, apesar de o Brasil e EUA, por exemplo, estarem ansiosos para começar a discutir os termos. Mas ainda assim, pode ser preciso que o BOE reduza juros na próxima reunião sobre política monetária.

 

Na Alemanha, o índice GFK de confiança do consumidor de fevereiro subiu para 9,9 pontos, de previsão de ficar em 9,6 pontos. Na zona do euro, a taxa de desemprego caiu para 7,4% em dezembro, a menor desde maio de 2008 e o índice de sentimento econômico subiu para 102,8 pontos em janeiro de previsão de 101,9 pontos. Já a safra de balanços do quarto trimestre tem mostrando de forma geral bons resultados e afetado pontualmente a precificação dos ativos. As empresas de tecnologia com bom desempenho, as de comunicação também e instituições financeiras. De certa forma, algumas performances foram mascaradas pelo efeito coronavírus que derrubou quase todas as ações.

 

No cenário local, também muitos indicadores de conjuntura e indicações de que o Congresso no retorno do recesso pode trabalhar intensamente. Pelo menos foi isso que o presidente da Câmara Rodrigo Maia tentou passar. Segundo ele há uma agenda intensa de reformas para serem discutidas e aprovadas, como a PEC emergencial, autonomia do Bacen e as reformas tributária e administrativa. Segundo ele a tributária já estava sendo discutida e deve ser mais fácil de aprovar, enquanto a administrativa ele espera que o governo encaminhe. Paulo Guedes disse que encaminhara nas próximas duas semanas, e em sua fala chegou a “culpar” o Congresso pela morosidade.

 

Ainda no plano político, o presidente Bolsonaro indicou que a visita feita à Índia foi excelente e fecharam acordos importantes. Mas Bolsonaro também demitiu o secretário da Casa Civil por abuso de poder (depois recontratou e demitiu em outra função) e o presidente do INSS por não propor medidas para acabar com as filas.

 

Também questionou o pagamento de R$ 48 milhões pelo BNDES para fazer auditoria (depois ficou em R$ 42 milhões) e obrigou o presidente Montezano a dar mais explicações. Além disso, parou de dar entrevistas matinais, e como isso evitou maiores ruídos. Paulo Guedes também falou bastante durante a semana e o secretário do Tesouro Mansueto de Almeida, explicou dados e traçou previsões sobre déficit e forma de atuação do governo.

 

Durante o período foi anunciado o déficit em conta-corrente de 2019 em US$ 50,7 bilhões, o volume de investimentos diretos no país com US$ 78,56 bilhões e gastos com juros de US$ 25,1 bilhões. Os investimentos em ações brasileiras encolheram US$ 4,7 bilhões, investimentos em fundos ficou positivo em US$ 2 bilhões e renda fixa com saídas de 4 bilhões, tudo referente ao ano de 2019. O Tesouro também mostrou que a dívida pública federal atingiu R$ 4,25 trilhões, com expansão em dezembro de 1,03% e participação de estrangeiros declinando para 10,4% do total.

 

Os vencimentos nos próximos 12 meses montam em 18,68% do total, e segundo o governo, o plano da dívida para o ano em curso é fechar entre R$ 4,50 trilhões e R4 4,75 trilhões.

 

O Bacen anunciou que a concessão de crédito livre expandiu 14,7% em 2019, para total de R$ 3,47 trilhões, significando 47,8% do PIB, de ano anterior em 47,3%. Os juros do crédito livre ficaram em 34% em dezembro, em queda. Já o endividamento das famílias estava em dezembro em 44,9% e juros rotativos do cartão de crédito subindo para 318,9% a.a. O déficit primário do setor público em 2019 foi de R$ 61,9 bilhões, gastos com juros de R$ 367,3 bilhões (5,06% do PIB) e o déficit nominal com R$ 429,1 bilhões, algo como 5,91% do PIB. A dívida bruta atingiu 75,8% do PIB, em queda em relação ao ano de 2018 que estava em 76,5% do PIB.

 

O IBGE mostrou que a taxa de desemprego no trimestre encerrado em dezembro foi de 11% e a média de 2019 ficou em 11,9%. A renda real cresceu 0,4% no trimestre e faltava trabalho para 26,2 milhões de pessoas. Os desalentados eram 4,6 milhões e a taxa de informalidade estava em 41%. Já a população ocupada era de 94,6 milhões.

 

Os números são melhores, mas a recuperação é lenta e a qualidade do emprego é baixa. A inflação medida pelo IGP-M de janeiro foi de 0,48% (anterior em 2,09%) e acumula em 12 meses, alta de 7,81%. No mercado acionário, forte volatilidade das ações de maior liquidez, por conta de saídas rápidas de investidores, especialmente os estrangeiros que até 29/1 já tinha sacado R$ 16,1 bilhões, lembrando que em 2019 já houve saída líquida de R$ 44,5 bilhões. Em janeiro, a Bovespa registrou perda de 1,62%.

 

BOVESPA -3,90% (113.760)

 

DOW JONES -2,54%

 

NASDAQ -1,76%

 

DÓLAR R$ 4,285 (+2,41%)

 

 

 

PERSPECTIVAS

 

Parece claro que o comportamento dos mercados no mundo vai continuar regido pelo noticiário sobre o coronavírus e sua propagação. Aparentemente a curva de contágio ainda deve seguir em alta, e aos poucos perdendo tração a partir das medidas adotadas. Portanto, isso significa volatilidade de preços.

 

Esse é certamente o fator determinante, mas teremos ainda notícias sobre o Reino Unido saindo da União Europeia e providências que serão adotadas, a continuidade da safra de resultados do quarto trimestre mexendo pontualmente com a precificação dos ativos e um cenário dúbio de desaceleração da economia global, em boa parte introduzida pela China e efeitos do coronavírus.

 

Aqui, teremos a decisão do Copom sobre política monetária com aposta majoritária de nova redução da Selic em 0,25%, a safra de balanços do trimestre findo em dezembro, e ainda todo o noticiário político com o retorno do Congresso do recesso e uma agenda extensa de reformas para serem discutidas e aprovadas (esperamos). Portanto, os ruídos políticos também estarão de volta, ampliando a volatilidade dos ativos.

 

Graficamente seria bem oportuno não perdermos a faixa do índice ao redor de 113.000 pontos, sob pena dos mercados desacelerarem ainda mais. Vamos torcer para que o coronavírus perca a guerra e que os investimentos e investidores comecem a retornar.

 

Bom final de semana!

 

Alvaro Bandeira

Alvaro Bandeira
Economista-Chefe do banco digital modalmais