Faz tempo que temos destacado que o ambiente político tem afetado a precificação dos ativos bem mais que a situação da economia e das empresas. Na verdade, desde antes do impeachment da presidente Dilma, isso acontece quase que de forma sistemática. Hoje foi mais um dia típico disso, com mercados operando em alta em praticamente todo o mundo e, aqui, com a Bovespa em queda e dólar com grande volatilidade, assim como os juros.

Performance de recordes sucessivos do mercado americano, com retornos em 2021 da ordem de 20% ou mais, enquanto a Bovespa com mísera valorização de menos de 1%. Não estamos eximindo a economia de reflexos com todas as idiossincrasias, mas apenas afirmando que o político pesa mais. Nesta semana, e até que durem as incertezas sobre as manifestações programadas para o Sete de Setembro, vamos viver isso com larga intensidade. Começamos a semana dessa forma, e há possibilidade de intensificar nos próximos dias.

No mercado internacional, a Alemanha anunciou a inflação pelo CPI de agosto em alta anual de 3,9%, dentro do previsto, e União Europeia retirou os EUA da lista de países considerados seguros para retomar viagens. Ainda lá, tivemos declarações sobre o Brasil, onde o discurso de Bolsonaro precisa ser traduzido em fato para mudar a visão sobre o país.

Nos EUA, as vendas pendentes de imóveis encolheram 1,8% em julho, quando o previsto era alta de 0,5%. Lá, o furacão IDA se transformou em tempestade e provocou queda inicial do petróleo no mercado internacional, mas a reunião da OPEP, com possível manutenção da expansão programada da produção de óleo, acabou revertendo para alta, depois de ter subido mais de 10% na semana anterior. Na China, o governo determinou três horas por semana para que menores de idade joguem online. Ainda na China, o regulador da área cambial questionou bancos e empresas sobre a gestão de risco.

No mercado internacional, dia do petróleo WTI, negociado em NY, reverter queda do início da manhã, sendo negociado em alta 0,58%, com o barril cotado a US$ 69,14. O euro era transacionado em leve alta para US$ 1,18, e notes americanos de 10 anos com taxa de juros de 1,28%. O ouro e a prata com quedas na Comex, e commodities agrícolas com viés de queda na Bolsa de Chicago. O minério de ferro também reverteu parte da alta de 12% da semana anterior em Qingdao, na China, fechando em queda de 0,56%, com a tonelada em US$ 156,66.

No segmento local, tivemos a divulgação da inflação de agosto pelo IGP-M, com desaceleração para 0,66% (anterior em 0,78%), acumulando alta no ano de 16,75% e, em 12 meses, de 31,12%. A confiança no segmento de serviços subiu 1,3 ponto, para 99,3 pontos, maior patamar desde setembro de 2013. Já a confiança do comércio encolheu 0,1 ponto, para 100,9 pontos.

A nova pesquisa semanal Focus, do Bacen, trouxe a inflação novamente em alta pelo IPCA para 7,27% (anterior em 7,11%), Selic estável em 7,50% e PIB caindo para 5,22% (anterior em 5,27%). A produção industrial subiu para 6,43% em 2021 e somente +2,20% em 2022, igual na pesquisa anterior. Dólar também subiu na previsão do fim do ano para 5,15%, saindo de 5,10%. O superávit da balança comercial em 2021 está estimado em US$ 70 bilhões e, para 2022, em queda para US$ 62 bilhões.

Sobre a novela dos precatórios, hoje prevalece a ideia de Fux de deixar com o CNJ a gestão do que fazer, com Rodrigo Pacheco (Senado) achando viável. Também tivemos novo manifesto pela pacificação das centrais sindicais (Fiesp e Febraban já trouxeram ruídos), atribuindo culpa ao presidente e ”não passando o pano”, como disseram no caso da Fiesp. Bolsonaro não perdeu a viagem e disse que o governo Biden tem obsessão pela questão ambiental. Já a Febraban disse que o objetivo não era atacar o governo, e sim buscar a pacificação entre os poderes.

A área econômica está convocando coletiva amanhã (às 15h) sobre o projeto de lei orçamentária de 2022. No mercado, dia de dólar fechando estável e cotado a R$ 5,19. No segmento Bovespa da B3, na sessão de 26/08, os investidores estrangeiros mais uma vez sacaram recursos no montante de R$ 357 milhões, deixando o saldo positivo de agosto em R$ 6,38 bilhões e o ano com ingresso líquido de R$ 46,14 bilhões.

O déficit primário de julho veio melhor que a previsão em R$ 19,9 bilhões, com a despesas sujeitas ao teto em +3,1, do limite de +5,9%. A receita real cresceu 38,1% e as despesas em queda de 18,1%. Em 12 meses, o déficit está em R$ 328,8 bilhões, algo como 3,8% do PIB, e no ano alcança R$ 73,4 bilhões. Sem as despesas com a pandemia de covid-19, o déficit seria de somente R$ 3 bilhões.

No mercado acionário, dia de alta de 0,32% na Bolsa de Londres, Paris com +0,08% e Frankfurt com +0,22%. Madri com queda de 0,61% e Milão em alta de 0,07%. No mercado americano, o Dow Jones com -0,16% e Nasdaq (recorde de pontuação com o S&P) com +0,90%. Na Bovespa, dia de queda de 0,78% e índice em 119.739 pontos.

Na agenda de amanhã, teremos dados da PNAD contínua de junho, taxa de desemprego e a nota de política fiscal de julho. Na Alemanha, a taxa de desemprego de agosto e, na zona do euro, a inflação pelo CPI (consumidor). Nos EUA, a confiança do consumidor do Conference Board e indicador de atividade PMI, ambos de agosto.

Boa noite!

Alvaro Bandeira
Economista-chefe do banco digital modalmais